fevereiro 27, 12
Queridos, apresento-vos Roberto Pellegrino, italiano, torcedor apaixonado do Roma e da “última flor do Lácio”, por suas mãos, sempre bela. Lia-o no blog da Maria Helena, onde pontificava pela sensibilidade, cultura e expressão apuradíssimas.
Privilégio tê-lo aqui, Roberto.
Cameriere, champagne!

Como iniciar um romance
Construiu uma ponte porque sabia que um anjo viria do horizonte.
Foi assim que ele iniciou seu romance. A ideia era boa, mas havia o problema de “ponte” rimar com “horizonte”: era prosa, não poesia. E também o do eco entre “sabia” e “viria”. Parou de escrever. Pensou em desistir. Considerou, porém , que seria um absurdo desistir de escrever o romance já no primeiro período. Aonde iria parar sua autoestima? Decidiu abandonar as ideias de “ponte” e “horizonte” e substituí-las por “escada” e “céu”:
Construiu uma escada porque sabia que um anjo viria do céu.
Outro problema. A escada serviria para o anjo descer do céu? Imaginou a cena e achou-a ridícula, pois, verdade seja dita, anjos não precisam de escada. Fez mais uma tentativa de iniciar o romance:
Postou-se diante do horizonte, pois sabia que dali viria um anjo.
Em primeiro lugar não gostou do verbo “postou-se”, que parecia mais coisa de correio, de correspondência. “Diante do horizonte”?, perguntou-se, e que lugar seria esse? Onde quer que estejamos, estamos sempre diante do horizonte de quem nos observa, concluiu. Mais uma tentativa mal sucedida de começar seu romance! Sua paciência com si mesmo estava se esgotando. Contudo, experimentou de novo:
Viu um anjo se aproximar dele, vindo do horizonte.
Nada mau, considerou, nada mau. Entusiasmado, continuou escrevendo:
Quando, porém, o ser alado chegou perto, ele viu que não era um anjo, mas um demônio!
Que ideia maluca a de confundir anjo com demônio. Nenhum leitor iria apreciar tal coisa. Seu romance estava fadado ao fracasso a partir das primeiras palavras. Bem, tentaria pela última vez, por hoje, empreender sua carreira de romancista. Precisava de algo diferente, inusitado, revolucionário até. Talvez isto:
Uma hecatombe natural aniquilou todos os animais e vegetais da Terra. Um anjo e um demônio surgiram no horizonte para se dedicarem à monumental tarefa de reinventar a vida em nosso planeta.
Finalmente ele ficou satisfeito com o início de seu romance.
Pelleberto Rogrino








