RIO DE SEMPRE

Rio de Sempre se assusta… já é carnaval!
Estava a andar pelas ruas do Leblon, meio sem sentido e sem vontade de fazer nada, quando uma voz explode no meu ouvido estalando meus tímpanos.
- Paulinho, você tem sorte mesmo. Vai rolar um Grito de Carnaval no Cosme Velho e você é meu convidado.
- João Pato, esse tal de Cosme Velho anda muito assanhado, recentemente me convidaram para um chá-dançante, agora é um Grito de Carnaval. Quando e local?
- Já vi que o convite te sensibilizou.
Com todas as informações anotadas, quis saber de mais algumas novidades. O João, amigo de meio Leblon: Carlinhos de Oliveira foi padrinho de batismo de seu primeiro filho; João Saldanha foi quem conseguiu sua internação na clínica de um cirurgião famoso após uma briga feia de bar; Paulinho Mendes Campos era seu fiel companheiro dos bares e dos porres. João já não anda com a mesma disposição de anos atrás. Me assustei com a sua vontade de ir a um Grito de Carnaval.
Certa vez, encontrei o João, num domingo de manhã, e não resisti ao seu convite para irmos a uma feijoada comemorativa do aniversário do Mestre Fuleiro do Império Serrano, em Madureira. Peguei meu carro e seguimos rumo a Madureira. Paramos em vários botequins dos subúrbios cariocas. Em cada um, o dono, amigo do João, tinha sempre uma voz de boas-vindas e a oferta de uma especial. Lá chegando, sentimos um cheiro de peixe que animava a casa de Fuleiro. Quando a simpática e bonita filha do aniversariante se aproximou para nos receber, minha curiosidade não resistiu e, em tom de graça, quis saber o porquê do cheiro de Peixe. A simpática moça, típica personagem de Jubiabá de Jorge Amado, respondeu: “Estamos já fazendo a sopa da madrugada. Agora é feijoada mesmo. Ontem fizemos uma peixada e, com a sobra, uma sopinha para curar o porre da turma.”
Foi quando me dei conta que a festa tinha começado na alvorada de sábado com uma apresentação dos Jongueiros da Serrinha.
O samba rolava, os músicos iam se revezando, o meu relógio andando e a preocupação de voltar para o Leblon dirigindo de porre.
Chegamos sãos e salvos no Leblon, pelo menos eu. O João, entreguei-o à sua mulher, que tomava um chopp com o Paulinho Mendes Campos , ambos cheios de preocupação.
João Pato é um amigo de poucos encontros, mas todos com uma história.
O Grito de Carnaval agora me assustava e me deixava curioso. O que um quase setentão vai fazer num Grito nesse fim de janeiro? Nada de lança-perfume, beber só o uisquinho poético, e os remédios de pressão espertos me aguardando para tomá-los na hora certa. Nem mais o carro tenho para esconder minha fantasia na mala, junto ao estepe.
Meu último Grito de Carnaval foi no Baile Vermelho e Preto, no ginásio do Flamengo, em 1980. O Flamengo tinha sido campeão carioca jogando a final com o Vasco e o zagueiro Rondinelli nos últimos minutos fez o gol do título. E, durante o baile, a cada 20 minutos a banda abaixava o volume e um speaker narrava o gol. Um delírio até para quem não era Flamengo. Não me esqueço desse baile, não só pela animação, como por minha estratégia para ir ao baile. Já casado, como explicar ir ao Grito do Flamengo, sendo um fanático torcedor do Botafogo. Nada como a desculpa de ter de entregar o orçamento da empresa no início da semana. E lá fui eu. Fantasia na mala do carro e meu uisquinho pronto para ser consumido no ponto de encontro da galera, num bar na Lagoa – o Camembert – de saudosa memória. Durou pouco. Bar fino frequentado por boêmio não dá certo.
O combinado era tomar um café da manhã na casa da Cinthia, moradora vizinha do Flamengo. Aconteceu o imprevisto. Roubaram meu carro, uma Belina verde. Desandei a chorar. Um guarda solícito se aproximou e quis saber o que houve:
- Roubaram a minha Belina.
- O amigo está sentado no capô de uma Belina verde.
Era a própria. O guarda pegou a chave do carro, meus documentos, e telefonou para minha casa. Atendeu o tio da minha mulher, um coronel do exército, figura maravilhosa que passava uns dias na minha casa.
- Vou até aí pegar os dois, o carro e meu sobrinho.
Ao chegar, quis saber como explicar à minha mulher, sua sobrinha.
- Deu problema no fechamento do orçamento.
- Tudo bem, é uma boa desculpa. Mas cheio de purpurina?
Hoje liguei para o João agradecendo o convite. Mas, por desencargo de consciência, perguntei se no Grito do Cosme Velho ia ter purpurina, confete, serpentina, etc. Só não perguntei por lança, objeto, graças a Deus, politicamente incorreto.
Meus gritos de hoje estão mais para grito de dor pela ausência de amigos, de saudade… De agradecimento pelos amigos vivos e ainda carnavalescos…
O Carnaval, deixo para seus dias oficiais ou para os ensaios da “Vaquinha Totó” e do “Último Gole”, que, por uma atitude burocrática da Prefeitura, vão sair no mesmo dia e na mesma hora: terça-feira, às 16:00h.
Bloco de carnaval não dá para dividir, como tantas outras coisas…
Na semana de Elis Regina, guardo suas palavras quando foi convidada para dar uma canja:
“Homem e palco não se dividem.”
Paulinho Lima


janeiro 25, 12 às 10:37 am
Qtas vezes a purpurina entregou a gente. Faz parte e quem não soube entender, até mais ver. Sair pra buscar o pão e só voltar na 4ª tb.
Boas risadas com o homem da Belina verde que deveria estar no museu dos canavalescos.Questão de justiça.
Abs.
janeiro 25, 12 às 11:32 am
Selminha, saindo para a praia e levando a crônica do Paulinho. Garanto um bom papo e quem sabe a Vaquinha Totó com a turma. Adoro a escrita desse menino do Rio e do blog. Fui!
janeiro 25, 12 às 5:42 pm
Blz, Selma, a gente vê que a crônica – gênero difícil mas abundante de talentos nacionais – continua em alta no RJ. Inspira a gente!
Bjão,
Adh
janeiro 25, 12 às 6:04 pm
Boêmio para ninguém botar defeito. A história do carro é sensacional!Salve o Paulo Lima!
Beijinho.
janeiro 25, 12 às 8:03 pm
Paulinho,além da descontração que brota de sua escrita, a gente se reencontra em diversas esquinas. Que beleza, rapaz. Já pensaste em reunir tudo isso em livro? Pois é tempo,amigo.
Abração.
janeiro 25, 12 às 9:34 pm
Paulinhoooo, um funcionário querido da empresa, mangueirense como eu (todo ano me traz a camisa da escola), sempre que leva um dedo de prosa comigo fala de um tal de “Escangalha sossego” e das desculpas que precisa inventar para a patroa. Figuraça…
Beijocas!
janeiro 26, 12 às 10:00 am
Ôoooo, Paulo Lima, há quanto não ouvia a expressão Grito de Carnaval. Mexeste com as melhores lembranças do velho CUPIM. Darei uma rebordosa nos blocos que vc falou, claro que levando o freio de mão.Madame não alivia, caro Lima.
Abs.
janeiro 26, 12 às 3:28 pm
Muuuuito bom, Paulo. Mas vem cá, não dá para argumentar c/ os burocratas do samba não? Os blocos são do mesmo bairro?
Bjs.
janeiro 26, 12 às 6:35 pm
Bem que Selminha, madrinha da Comissão de Frente, avisara.
O carnaval já começou no “Rio de Sempre”, e os enredos do Paulinho são sempre nota dez e merecem o Estandarte de Ouro.
O desfile por certo continuará na próxima semana, para nossa alegria.
janeiro 26, 12 às 6:55 pm
Paulinho, Paulinho, você é o meu Rio.
Muito meu, sim, Paulinho, pode crer. Estou desolado com o desastre da Av. 13 de Maio. Durante muitos anos aquele espaço, ali, foi minha casa. Tive meu escritório num grupo de salas no 18° andar do Ed. Municipal (o do Bola-Preta) cuja portaria é fronteira aos prédios que caíram. Minhas janelas, sobre a cúpula do Teatro Municipal, tinham aqueles três prédios no primeiro plano da paisagem. Sob um deles, funcionava uma padaria, pães deliciosos, que, à noite, eu costumava levar para casa! Há uns cinco anos vendi as salas, mas presenciar o drama, comovido, é prova de que aquele pedacinho do Rio situa-se do lado de dentro da minha casa.
Suas crônicas me cativam e me apaixonam, amigo. Como se vê, talvez eu seja um carioca (com sotaque mineiro) quase tão apaixonado pelo Rio quanto você.
Com um particularidade fundamental: sua carioquice foi mais bem vivida.
janeiro 26, 12 às 7:25 pm
Zé do Carmo, vamos perdendo nossas paisagens…
Beijocas!
janeiro 27, 12 às 11:59 am
Eu andei atrasada com o blog e estava perdendo essa delícia de crônica! Evoé, Paulinho Lima! Quero mais!
Bjim
janeiro 27, 12 às 4:56 pm
agradeço os comentários..vcs saõ todos muito simpáticos. mas Clara, não dá para conversar com a prefeitura. O Ultimo gole é legalizado. Fica numa pracinha, e os moradores levam suas cadeiras e mesas…e o baile acontece, ao belo som da bateria e dos moradores.
Com a vaquinha é diferente, não somos legalizados, ficamos num curral, bar do Azzeitona,e não saímos. Como o Aeitona é palco de vários blocos oficiais só sobrou a terça feira…para os muares…que pelo perfil de seus participantes que é totalmente sem perfil…tudo é imprevisto e imponderável e quem rege a banda são avós, pais, mães, netos, jovens, não jovens…apesar de estarmos preso num curral, nosso samba e corações e mente desfilam até onde o som da Vaquinha chega. já sei não entendeu nada..é assim a vaquinha…
janeiro 27, 12 às 7:12 pm
Clara, está vendo do que se trata Paulinho Lima? Isso. Maravilha.
Beijocas!