
PARECE JANEIRO
Caminhava pela praia quando tropeçou nos olhos dela.
Aqueles olhos eram inconfundíveis.
Quase da cor do mar (quase, porque nenhum mar transborda tantos verdes e azuis).
O olhar, que era quase um sol (quase, porque sol algum tem aquele fervor), estava agora mais sereno, quase um luar (quase, porque lua nenhuma reluz assim).
Era ela!
Era ela?
Os cabelos louros estavam mais curtos, os seios, mais fartos, a mesma boca e o mesmo nariz pouco comuns em surpreendente harmonia.
Era ela!
O corpo ainda esguio na sua insinuante madureza.
Os olhos pousaram nele brevemente, mas o olhar se desviou pouco depois, como o luar que uma nuvem encobre.
Era ela?
Era ele?
A cidade e a praia já não eram as mesmas.
Aquele janeiro não era o mesmo janeiro.
Eles mesmos não eram os mesmos.
Mesmo?
Antonio Carlos A. Gama


janeiro 24, 12 às 1:38 pm
Minha leitura da crônica de hoje, pelos versos de Macedonio Fernández:
Amor foi embora; enquanto durou
de tudo fez prazer;
Quando foi embora
Nada deixou que não doesse.
RR
janeiro 24, 12 às 2:08 pm
Quanta poesia na descrição da musa dos primeiros janeiros. Crônica lindíssima! E com meus ‘musos’ cantando, aí é que ficou mais especial. Parabéns, Antonio Gama!
janeiro 24, 12 às 3:41 pm
Eita que rolou uma lágrima furtiva aqui no velho CUPIM. Mexeu com meus insanos dezembros, janeiros e tudo mais.
Abs.
janeiro 24, 12 às 5:42 pm
Prosa poética pra ninguém botar defeito. MARAVILHOSA! Ele falando do olhar dela e aquele “mesmo?” num final cheio de incredulidade, de alguma esperança, quem sabe, de alguma chama… AMEI!!!!!!!
Palmas também pra Jobim e Chico!!!
Selminha, exagerei nas exclamações, eu sei. Acordei assim.
janeiro 24, 12 às 5:52 pm
Esse Ribeirão Pretense (é isso?)é bom demais. Sua fala é de alguém que por aqui passou e nunca mais saiu, por uma única razão: deixou seu espírito e encantamento. As cidades mudam e nós mudamos mas o que deixamos para trás são nossas pegadas e essas ficam. Se janeiro ou outro tempo qualquer só importa para quem um dia um dia exclamou em bom tom. DEIXA EU OLHAR, QUERO VIVER. Gama que bom lè-lo meio cammbaleante por mais viver…Uma pergunta: será que aquela morena de olhos verdes e cabelos escorrridos que conheci em 1978 no Pinguim ainda anda por ai? O nome dela é Mariangela.Estudava veterinária. estou “lembrando” de mais coisas. vou ficar por aqui mesmo.
janeiro 24, 12 às 7:11 pm
Quem tropeçou aqui fui eu, na beleza deste poema em prosa, na certeza duvidosa do “Era ela?”… dos janeiros de ora e de outrora.
Suas crônicas me encantam, Antonio Gama!
janeiro 24, 12 às 7:28 pm
Harumi, você está fora do país e nos brinda com sua delicadeza…
Posso agradecer pelo Gama? Fi-lo.
Beijocas!
janeiro 24, 12 às 8:20 pm
Antonio Gama, meu amigo. Não sei se sou Dick e você é Lúcio. Ou se sou Lúcio e você é Dick. (Todos sabem: Lúcio Alves e Dick Farney)
Uma coisa me parece certa, Gama: ela é a minha Tereza da Praia.
Não vem que não tem!
Agradeço o momento! Poesia puríssima; água de mina na folha de inhame.
janeiro 24, 12 às 10:41 pm
Queridos todos, ler o Gama ouvindo Tom e Chico é um privilégio. Como escreve bem esse moço…
Por falar em excelente leitura, não percam a crônica de Jabor (de hoje) sobre o filme “A música segundo Tom Jobim”, do NPS. Emocionante.
Beijocas!
janeiro 25, 12 às 5:39 pm
Pô, apelou… Adoro essa música (dentre tantas desses dois e de cada um) e uma história que o Chico conta sobre quando compunha com o Tom… Diliça…
Mas o Jabor??? Sinto muito, eu passo (saiu no estadão também, nem pelo assunto consigo ler esse fulano).
Abção, feriado em Sampa mas eu fui trabaiá!!!
Adhcamelo
janeiro 25, 12 às 6:07 pm
Uma das crônicas mais lindas que li nos últimos tempos. Em poucas linhas foi dito tanto. Maravilha!
Beijinho.
janeiro 25, 12 às 6:09 pm
[...] (Publicado no Blog da Selma Barcellos) [...]
janeiro 26, 12 às 10:05 am
Selminha e Gama, sei que já comentei, mas vim ler tudim de novo e me emocionar travêis. Sou muito fraco pra escritas bonitas.
Abs.
janeiro 27, 12 às 12:07 pm
Belíssima música para uma crônica antológica. Aplausos, Antonio Gama!
Bjim
janeiro 28, 12 às 10:18 pm
Tudo que disser ainda será pouco. Infinitamente lindo!…
fevereiro 2, 12 às 1:52 am
Paulinho Lima: Ribeirãopretano.
A moça de belos olhos que estava no Pinguim não sei se anda por la.
Outras estão. Estou sempre lá.
E continua otimo!!