Agora vai
janeiro 31, 12

janeiro 31, 12

Soneto da maioridade
O Sol, que pelas ruas da cidade
Revela as marcas do viver humano
Sobre teu belo rosto soberano
Espalha apenas pura claridade.
Nasceste para o Sol; és mocidade
Em plena floração, fruto sem dano
Rosa que enfloresceu, ano por ano
Para uma esplêndida maioridade.
Ao Sol, que é pai do tempo, e nunca mente
Hoje se eleva a minha prece ardente:
Não permita ele nunca que se afoite
A vida em ti, que é sumo de alegria
De maneira que tarde muito a noite
Sobre a manhã radiosa do teu dia.
(Vinicius de Moraes)
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janeiro 31, 12

MISSA DE CORPO PRESENTE
Daqueles que estavam presentes, ninguém faltou.
Dos que faltavam, ninguém fez falta.
Assim pensava, enquanto assistia à missa de corpo presente.
Missa rezada à moda antiga, em latim, com o padre de costas para os fiéis e de frente para o altar, como deixara recomendado o falecido e fora atendido pelo vigário, com autorização do bispo, em especial deferência à saudosa e ilustre figura.
Durante o réquiem, ainda a pedido do extinto, foram entoados cantos gregorianos, ou cantos planus, como ele gostava de dizer.
De onde estava, podia ver a viúva e os filhos ao lado do caixão. Ela, quase vinte anos mais nova que o marido, ainda era uma bela mulher, com seus cabelos volumosos escorrendo pelo vestido preto justo, que lhe caía muito bem, realçando a pela alva, as formas perfeitas, os belos seios destacados pelo decote discreto, as pernas longas e torneadas ressaltadas pelas meias também negras e o salto alto.
Não lhe faltariam pretendentes para novo marido ou para amante, se ela assim preferisse, já que estava bem amparada pelos generosos recursos deixados pelo finado, e não mais dependeria de homem algum.
Os filhos adolescentes — o rapazinho imberbe, com o ar apalermado de quem não entendia bem o que estava acontecendo; e a menina, com os olhos inchados e vermelhos pelo choro, mas já a desvelar a moça fascinante que sobrevinha, mantendo a postura hierática e amparando a mãe — também não passariam dificuldades até que ambos se formassem e tivessem vida própria.
Acompanhou a longa liturgia da missa solene com certo enfado e alguma impaciência.
Na homilia, o padre discorreu sobre a efemeridade da vida terrena e das pompas do mundo, além de fazer os elogios de praxe ao falecido, definindo-o como um homem da ciência e do saber, “com lógica de ferro e coração de ouro”.
Após a bênção final, quando o sacerdote proclamou “Ite, missa est”, ele já não estava presente.
Antonio Carlos A. Gama
Publicado em Antonio Carlos Gama, Colaboradores, Expressão | 8 Comentários »
janeiro 31, 12

Concordo com voça eçelênçia, nobre çenador: não çe reçpeita um homem peloç çeuç cabeloç acaju, porque oç canalhaç também rejuveneçem.
Publicado em Antonio Romane, Colaboradores, Expressão | 6 Comentários »
janeiro 30, 12

cantei a poesia
e ela ficou comigo
por um dia
agora que eu não vivo sem ela
me esnoba
só vem quando quer
ai, mulher difícil
se lhe dou bandeira
ela quer vinicius
(Ricardo Silvestrin)
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janeiro 30, 12
Pardais novos
“Um dia o meu telefone, instalado à cabeceira de minha cama, retiniu violentamente, às sete da manhã. Estremunhado tomei do receptor e ouvi do outro lado uma voz que dizia:
Mestre, sou um pardal novo. Posso, ler-lhe uns versos para que o senhor me dê a sua opinião?
Ponderei com mau humor ao pardal que aquilo não eram horas para consultas de tal natureza, que ele me telefonasse mais tarde. O pardal não telefonou de novo: veio às nove e meia ao meu apartamento.
Mal o vi, percebi que não se tratava de pardal novo. Ele mesmo como que concordou que o não era, pois perguntando-lhe eu a idade, hesitou contrafeito para responder que tinha trinta e cinco anos. Ainda por cima era um pardal velho!
Desde esse dia passei a chamar de pardais novos os rapazes que me procuram para mostrar-me os seus primeiros ensaios de voo no céu da poesia. Dizem eles que desejam saber se têm realmente queda para o ofício, se vale a pena persistir, etc. Fico sempre embaraçado para dar qualquer conselho. A menos que se seja um Rimbaud ou, mais modestamente, um Castro Alves, que poesia se pode fazer antes dos vinte anos? Como Mallarmé afirmou certa vez que todo verso é um esforço para o estilo, acabo aconselhando ao pardal que vá fazendo os seus versinhos, sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha.
A semana passada recebi carta, não de um pardal, mas de uma pardoca. De uma pardoquinha. Com dezesseis anos, que beleza! Mandava-me versos não só em português, mas em francês também e inglês. Havia qualquer coisa naqueles balbucios. O francês estava bem erradinho, mas o inglês não, e até saiu bonitinho. Respondi-lhe assim:
Dos poemas que você me mandou o melhor está no próprio texto de sua carta e é isto:
Tenho dezesseis anos
Estou cursando o 1.° científico
E fico eufórica sempre que escrevo algo.
Se você se sente eufórica quando escreve alguma coisa, vá continuando a escrever, pelo só prazer de escrever, que já não é pouco.
Dezesseis anos! Que idade risonha e bela, não, leitores?”
(Manuel Bandeira, 1955)
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janeiro 30, 12
O blog abre espaço para o artigo do mineiro José do Carmo – um inspiradíssimo contador de causos – abalado, em sua carioquice, pela perda de paisagens que lhe eram caras e pela angústia diante da irresponsabilidade de tantos.
Cá de Minas onde resido, o desmoronamento dos três prédios da Av. Treze de Maio, no Rio de Janeiro, ressoou como se ocorrido na minha rua, aqui em frente.
É que a Av. Treze de Maio foi, de fato, a minha rua, a rua do meu trabalho, do meu dia a dia, além de rua do Theatro Municipal, do Banco do Brasil – Cinelândia, do Cordão do Bola Preta, do antigo IAPB, no Edifício Darke, e da Cia. Siderúrgica Nacional, no histórico Edifício Municipal.
Fronteiriças aos prédios que desabaram, minhas janelas de escritório, no 18° andar, sobre a cúpula do Teatro Municipal, tinham aqueles prédios no primeiro plano da paisagem, com a Baía de Guanabara ao fundo, o Pão de Açúcar e a Ponte Rio – Niterói.
No térreo de um deles, funcionava uma padaria com pães especiais que, à noite, costumava levar para casa, para deleite do meu filho.
Presenciar, pela TV, a remoção daquele entulho me comove e me atesta situar-se ali um pedacinho do Rio a integrar, silenciosamente, minha própria noção de lar.
Opinar prematuramente sobre causas da tragédia não é responsável. Se, de saída, entretanto, foram descartadas as hipóteses de explosão, algum outro episódio terá comprometido fatalmente as estruturas da edificação maior, que levou de roldão as duas menores.
Sabe-se que o concreto não perde resistência com o tempo – ao contrário, fica mais duro − a menos que ferragem exposta à ferrugem o comprometa, o que é raro. Obras desastradas surgem, então, como causas mais prováveis dos danos à estrutura.
A propósito, vivi experiência bastante elucidativa da questão. Na década de 80, residindo no Rio de Janeiro, contratei empresa para abrir um buraco na parede e instalar condicionador de ar em meu apartamento de 10° andar, num prédio das Laranjeiras.
Aos dois pedreiros que chegaram pela manhã, indiquei a parede a ser furada e fui trabalhar. Cismado, porém, resolvi almoçar em casa para conferir o andamento da obra. Que susto! Só a metade direita do buraco estava aberta; a outra, a duras penas, eles tentavam, roer a marteladas…
-Está muito duro, Doutor, é concreto armado!
Foi fácil logo ver que, na ponta das talhadeiras, estava uma pilastra do prédio. Desesperado, gritei que parassem com aquilo. Devo ter praticado “uma boa ação”.
Obras feitas por “curiosos”, sem qualquer planejamento técnico, são comuns. Moradores, proprietários e síndicos precisam estar atentos. Contratar pedreiro indicado pelo porteiro é uma temeridade.
Também não pensar que a simples regularização da obra nos CREA garante segurança. Dão apenas notícia de que “há um engenheiro responsável”. O que não é tudo. É bom saber se o engenheiro, de fato, projetou e – importantíssimo – se passa por lá. Porque Conselho não fiscaliza obra: ele apenas defende a contratação dos profissionais por cujos interesses zela. Conselhos são autarquias que funcionam mais como cabides de emprego, burocracias cartorárias vorazes apenas em relação às próprias receitas, com taxas e multas.
O ideal seria fiscalização municipal eficiente, acompanhando reformas e exigindo manutenção. Infelizmente, esta é outra área em que, pelo menos nas grandes cidades, a corrupção campeia solta. Dinheirinho para aprovar, dinheirinho para não multar, dinheirinho pra isto, dinheirinho pra aquilo. E, cuidado, hem! Melhor contratar despachante “do ramo”, que coloque a grana na mão da pessoa certa. Se não…
A imprensa publicou duas fotos comparativas do prédio responsável pelo desastre da Treze de Maio. Na foto mais recente, aparecem obras de acréscimo nos andares superiores e inúmeras janelas abertas na empena cega do prédio. O vulto dos acréscimos assusta pelas possíveis toneladas de cimento, areia e tijolos ali colocados posteriormente ao cálculo das estruturas. As aberturas das janelas sugerem possíveis danos aos pilares… Tudo obra irregular.
É rezar pelos mortos.
José do Carmo
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