Desencanto

Brasília não faz parte do meu mapa afetivo. Deveria.
Foi minha primeira residência ao casar (superquadra com vista para descampado sem fim); vivi os primeiros encantos da maternidade, pois que lá nasceram os dois “candanguinhos”; recebi meu diploma de jornalista pela UnB; exerci a paixão por sala de aula (belo dia, brigadeiro pai de aluno levou a turma para visitar uma tribo do Xingu, com direito a pouso em clareira na mata e inesquecível visão do que só conhecia de livros). Sem falar nas tardes de domingo na confeitaria Praliné, melting pot de sotaques cheios de saudade, nos ipês, nas garças, no céu lilás e na mística que envolvia a hoje quase cinquentona senhora de eixo monumental.
Por que então pulei feito criança ao saber que o marido já cumprira os cinco anos de permanência obrigatória e poderíamos voltar a Niterói? A que atribuir tamanho desafeto? E, passado tanto tempo, por que persiste a trava de umbu-cajá?
Tento assinalar o melhor clichê: “se Brasília fosse boa, Niemeyer morava lá”, “aquilo não é cidade, é pista de pouso e decolagem”, “Brasília é desumana, nem esquina tem”, “é uma prisão ao ar livre”, “lá todos são inocentes e todos são cúmplices”, “em Brasília quem não é da panelinha é da marmita”… Nenhuma das alternativas. São injustas para com a peculiar beleza da cidade e extensivas à gente batalhadora e honesta que a habita e constrói.
Porém, nos últimos anos, os podres poderes de Brasília vêm se encarregando de clarear e ratificar meu desencanto. Em sua esplanada está a mão que balança o berço dos maiores cretinos da história política brasileira. E aquele descampado sem fim que eu avistava já era o tal roçado de corrupção e mentiras. Faltavam somente áudio e filme.
Pena. Queria odiar Brasília com mais amor…


março 3, 10 às 12:48 am
Selma, minha querida: a Sophie manda um beijo. Um beijo monumental…rs…
Sophie ama Niterói. Sabia?
março 3, 10 às 11:50 am
Beijos! Niterói-sur-mer é muito agradável mesmo. Claro que com dores e delícias…
Diga à Sophie que os passarinhos daqui gorjeiam lindinho.
Obrigada pela visita!
Mais beijocas.
março 3, 10 às 1:15 pm
Selma, Brasília só por um dia, pegando o vôo das 9 e vazando no de 18:30h. Passando pelo Beirute, claro.
Abs.
março 3, 10 às 4:37 pm
Tia, gosto da cidade Brasília. Tenho amigos brasilienses e passo boas temporadas por lá.
Claro que é diferente de morar. E mais claro ainda (vc tem razão) que os políticos estragam tudo com suas imundícies.
Beijosssss
março 3, 10 às 6:07 pm
E se implodíssem o tal complexo de agregador de sem vergonhas, Selminha? (com os tais meliantes dentro, calro!) Aí não da para encarar?
Ah, sei lá. Não saio de SP por nada, então acho que te entendo…Nosso berço é nosso lar!
Bjs
março 3, 10 às 7:09 pm
Não sei… sobre Brasilia: Não conheço e não gosto
março 3, 10 às 7:37 pm
Ai, Selma, é uma pena que você não tenha ficado mais tempo por lá. Eu cheguei 25 anos atrás, vivi com Brasília metade da vida dela – e mais da metade da minha – e amo aquela cidade. É claro que não gosto dos cretinos, muito menos dos corruptos, dos que penduram o paletó na cadeira da repartição e voltam para buscar no fim do dia, dos que vêem Brasília com olhos de apostador e não enxergam a sua gente.
Brasília não são eles. Juro pra você! Brasília sou eu, é meu filho, são nossos amigos e vizinhos, é a Valdete que durante 12 anos pegou quatro ônibus por dia para cuidar lá de casa (e assim criou quatro filhos), é o rapaz que juntou dinheiro cortando carne, montou um açougue-biblioteca pública, criou uma rede de mini-bibliotecas públicas nas paradas de ônibus e fecha a comercial da 312 Norte de tempos em tempos para promover shows incríveis para a comunidade. É um monte de gente que faz, acredita, luta e que, sobretudo, vive com absoluta honestidade.
Mas Brasília, infelizmente, também é a anfitriã do supra-sumo da cretinice nacional, que chega lá com os votos de todos nós. E, infelizmente, ainda votamos muito mal. Quem sabe um dia?
Um beijo.
março 3, 10 às 7:56 pm
Anamaria, por isso fiz questão de escrever, de coração, que aquelas frases “são injustas para com a peculiar beleza da cidade e extensivas à gente batalhadora e honesta que a habita e constrói.”
Eu atesto e assino embaixo que a beleza de Brasília vem de sua gente e que nós precisamos MESMO aprender a eleger nossos homens públicos.
Beijocas e obrigada pelo depoimento.
março 3, 10 às 9:30 pm
- Que bom, Selma, que você tenha, um dia, amado Brasília. Eu sempre a detestei. Acho que é em razão daquele ar de permanente subserviência aos políticos que paira em todos os lugares. Mas a sua Niterói faz parte dos meus bem-quereres. Morei lá, em frente a pedra de Itapuca, e fui feliz. Aquelas calçadas que vão da Praia das Flechas ao antigo Saco-de-São Francisco, devem guardar a trilha cavada pelos meus passos, tantas foram as vezes que as percorri, sozinho ou de mãos dadas com a felicidade de olhos castanhos e meigos, inolvidáveis.
março 4, 10 às 5:54 pm
Selma,
Acho que pegou leve demais!
Não é a cidade nem a sua gente ,é o Distrito Federal que assambarca, na sua maioria , todos os corruptos desse país.
A começar com o pior chefe de estado com família e comitiva.
O que será de nós..!?
De qualquer forma, valeu o toque!
Bjs,
Leila
março 4, 10 às 8:05 pm
Puxa…
Linda a frase “queria odiar Brasília com mais amor”. REsume tudo. Fui lá duas vezes, a intervalos muito grandes de tempo. A 2a visita desfez o encanto criado na infância. Acho que o conteúdo influi no conceito que temos da forma, e a concepção urbanística (genial, de Lúcio Costa) foi desfigurada ao longo do tempo. Pena.
Bjão,
Adh
março 5, 10 às 4:08 pm
Brasília, como você bem disse, tem gente honrada e trabalhadora. O povo é cortês no trânsito (isso me impressionou).
Quanto à máfia política, está certo o palhaço da foto. Dizem mais: que se derrubar aquilo tudo, vira área de lixão, de esterco.
Beijos!