Arquivo para março 2, 10
Desencanto
março 2, 10

Brasília não faz parte do meu mapa afetivo. Deveria.
Foi minha primeira residência ao casar (superquadra com vista para descampado sem fim); vivi os primeiros encantos da maternidade, pois que lá nasceram os dois “candanguinhos”; recebi meu diploma de jornalista pela UnB; exerci a paixão por sala de aula (belo dia, brigadeiro pai de aluno levou a turma para visitar uma tribo do Xingu, com direito a pouso em clareira na mata e inesquecível visão do que só conhecia de livros). Sem falar nas tardes de domingo na confeitaria Praliné, melting pot de sotaques cheios de saudade, nos ipês, nas garças, no céu lilás e na mística que envolvia a hoje quase cinquentona senhora de eixo monumental.
Por que então pulei feito criança ao saber que o marido já cumprira os cinco anos de permanência obrigatória e poderíamos voltar a Niterói? A que atribuir tamanho desafeto? E, passado tanto tempo, por que persiste a trava de umbu-cajá?
Tento assinalar o melhor clichê: “se Brasília fosse boa, Niemeyer morava lá”, “aquilo não é cidade, é pista de pouso e decolagem”, “Brasília é desumana, nem esquina tem”, “é uma prisão ao ar livre”, “lá todos são inocentes e todos são cúmplices”, “em Brasília quem não é da panelinha é da marmita”… Nenhuma das alternativas. São injustas para com a peculiar beleza da cidade e extensivas à gente batalhadora e honesta que a habita e constrói.
Porém, nos últimos anos, os podres poderes de Brasília vêm se encarregando de clarear e ratificar meu desencanto. Em sua esplanada está a mão que balança o berço dos maiores cretinos da história política brasileira. E aquele descampado sem fim que eu avistava já era o tal roçado de corrupção e mentiras. Faltavam somente áudio e filme.
Pena. Queria odiar Brasília com mais amor…

