Vampiros nossos de cada dia

Dois animais, por asquerosos e irritantes, tiram-me do sério.
Um é o morcego, esse rato alado que, bolsa-amêndoa garantida, se instala com a família nas árvores em torno de casa. Mal o sol se põe eles batem ponto, obrigam-me a recolher os brinquedos e a chispar do jardim. O mais velho deles, imenso, sente-se posseiro, e toda santa tardinha faz o mesmo percurso: rasante na piscina, sobrevoada de inspeção na varanda e lá se vai farfalhante, feliz da vida por ter me azucrinado e me desconcentrado da leitura.
Dia desses, sozinha em casa, no computador do quarto, senti algo passar muito rápido por trás de mim. Só deu tempo de agarrar o celular, me trancar no closet, telefonar para os gêneros masculinos, pedir que encontrassem a criatura viva ou morta e me resgatassem dali. Sufoco, gente. Que isso.
O outro animal é o político, esse vampiro dos cofres públicos que, bolsa-nepotismo garantida, se instala nas árvores frondosas com os protegidos (entre outras morcegadas). Incapaz de solucionar nossos graves problemas, também nos obriga a abandonar o jardim. Afinal, não se brinca com voo rasante de balas perdidas. Coincidente é que o mais graúdo deles, o “cara” do morcegal, também se acha posseiro e sai atropelando tudo…
Feitos do mesmo barro, quase lama, variam as anomalias desses seres. Um, do alto de sua ignorância e preconceito, declara que “câncer de mama acontece em homens por causa de passeatas gays”. Outro, com seu oportunismo demagógico, lapida que “não há nada mais nojento do que o preconceito. Eu saí de casa e o meu filho de sete anos perguntou aonde eu ia. Disse que ia na parada gay e expliquei a ele. Qual é o problema de um homem gostar de outro homem e uma mulher gostar de outra mulher? É uma opção sexual de cada um. Isso é tão atrasado e medieval. Eu lamento que haja político atrasado”. Deveria ter levado o filho para assistir ao desfile, não? É muita hipocrisia… O que não se diz e não se faz à caça de votos…
Para minimizar o assédio dos morcegos do jardim, vou podar alguns galhos das amendoeiras. Solução simples. E temporária, eu sei.
Quanto às outras criaturas horripilantes, está mais complicado e sem prazo. Padecendo de terrível mutação, pululam feito bactéria. Crescem-lhes multiformes caras. E estão podres os galhos. Todos.


novembro 3, 09 às 9:03 pm
Há muitas semelhanças entre os dois “animais asquerosos e irritantes” que você citou. Do segundo, no entanto, você não pode se proteger simplesmente ficando dentro do closet… Melhor seria se todos tivessem consciência dentro de outro closet: a cabine de votação.
Pena que estamos longe da maturidade eleitoral. Meu maior medo é que ainda não existe cura para esse mal, da mesma forma que ainda não inventaram a cura da raiva (que é transmitida por morcegos).
novembro 4, 09 às 1:11 pm
Quem manda morar cercada desse verde maravilhoso de Itaquá? Morceguinhos na área! Vivendo em apto. não convivo com eles. Mas os políticos vampiros, ratões do nosso dinheiro, esses não estão dando trégua mesmo.Concordo.
Beijos.
novembro 4, 09 às 4:21 pm
Selma, concordo com o comentário do Ricardo. Só há salvação pelo voto consciente. O que pega (e desanima) é a falta de material humano confiável, líderes menos corrompidos.
Abs.
novembro 4, 09 às 7:38 pm
Já ri muito de você trancada no closet! Sinistro.
Quanto aos políticos são todos chupa-sangue mesmo. Não salva um. Opção zero de voto.
Beijosssssss
novembro 5, 09 às 1:41 pm
Eu sou uma desiludida cívica. Esse Cabral me irrita às entranhas.
Selma, enfrento morcego e subo em árvore por causa de barata…
Beijos!