Sinal de vida

(Cascais, ontem, ao entardecer. Tanto mar…)
Espreito a mesa das palavras, ansiosa por voltar a elas, e constato que as horas roubadas à escrita me fazem sentir culpada. Ah, mas essa lua, esse vinho, esses doces e essa agenda cultural botam a gente gazeteira como o diabo… Tempo e espaço navegam todos os sentidos.
Por exemplo, saio agorinha a assistir “Mistérios de Lisboa”, filme baseado no guia turístico que Pessoa escreveu em 1925, pois que incomodava o poeta o desconhecimento de Portugal no estrangeiro, sua “descategorização civilizacional” e a incapacidade de se afirmar no mundo àquela época. Na verdade, Lisboa foi o único amor constante de Pessoa, a cidade que também foi sua aldeia, portas abertas pelo Tejo, plena de lembranças da infância, recantos, segredos.
E, na sequência, faço uma visita ao melhor embaixador de Portugal. Ele, o pastel de nata, essa delícia que dialoga com nossos ouvidos ronronando um croc-croc dos deuses, acompanhado de um Porto rubi. Comboio bão, sô.
Vou-me, pois, queridos do blog. Não sem antes deixar-vos um beijo e um (belíssimo!) poema do brasileiro Carlos Nejar. Confiram.
LUIZ VAZ DE CAMÕES
Não sou um tempo
ou uma cidade extinta.
Civilizei a língua
e foi reposta em cada verso.
E à fome, condenaram-me
os perversos e alguns
dos poderosos. Amei
a pátria injustamente
cega, como eu, num
dos olhos. E não pôde
ver-me enquanto vivo.
Regressarei a ela
com os ossos de meu sonho
precavido? E o idioma
não passa de um poema
salvo da espuma
e igual a mim, bebido
pelo sol de um país
que me desterra. E agora
me ergue no Convento
dos Jerônimos o túmulo,
que não morri.
Não morrerei, não
quero mais morrer.
Nem sou cativo ou mendigo
de uma pátria. Mas da língua
que me conhece e me espera.
E a razão que não me dais,
eu crio. Jamais pensei
ser pai de tantos filhos.


novembro 24, 09 às 9:07 pm
Minha querida,
o que posso dizer.. clap, clap, clap. Um muito obrigada pelas deliciosas e lindas palavras sobre este pequenino e amado quinhão de verde- azul.Bem Haja.
Um beijinho.
novembro 24, 09 às 10:08 pm
Demorou a dar sinal, tia querida! Todo dia eu entrava para ver se tinha alguma notícia. Pelo visto está amando. Traga um pastel de nata para mim, faz favoire.
Ah, lindo o poema! Os 3 últimos versos então…
Beijossssss
novembro 25, 09 às 7:50 am
Alvíssaras!
Que veia poética na prosa fluente,
essa em que uma ponta de saudade já se sente,
mesmo estando aí,
e bem contente!
Sobre a Cascais de cá eu digo agora,
está um cantinho a povoar-se de pequenos edifícios
que assim ao ver-se pelo lado de fora
denuncia de verdade o meu ofício.
Tua Cascais, por certo, é mais bonita,
esteja bem, esteja atenta pra contar
aos teus fãs sobre essa terra bendita
onde aos teus queridos foste encontrar!
Gde abç,
Adh
novembro 25, 09 às 8:44 am
[...] P/ Selma Barcellos (http://www.tiaselma.com/2009/11/sinal-de-vida) [...]
novembro 25, 09 às 10:09 am
Selma, que graça o poema do comentarista acima!
Tudo de bom irmos conhecendo Cascais (e Portugal)com você.
Beijoquinha.
novembro 26, 09 às 2:33 pm
Belíssimo olhar sobre terras lusas.
Um abraço
novembro 26, 09 às 10:53 pm
Que bom SELMA ouvir sua voz em letras!Pelo que sinto esta amando ,ao lado dos amados.O restaurante que mencionei em Sintra chama-se:CANTINHO DE SÃO PEDRO, na rotunda quando se esta chegando em Sintra, vira-se à esquerda, bem no posto de gazolina BP, é só seguir até a Praça D. FernandoII. bjs FRancy
novembro 27, 09 às 6:56 pm
Oi, Selma,
você está certa de aproveitar bem a terrinha. Navegar é preciso…
Divirta-se!
Beijos,
Tati.
dezembro 13, 09 às 9:24 am
Ana, consultei a Matilde ainda agora e ela me informou desconhecer a pessoa e a família a quem você se referiu.
Abraço.