Arquivo para novembro 30, 09
O que importa saber
novembro 30, 09
(foto de João Palmela)
Mantra de uma amiga querida quando está fora do Brasil: “Quem converte não se diverte.” Acrescentaria eu que quem assiste ao noticiário local também. Não precisamos saber das mazelas do país que, plenos de sonhos, escolhemos visitar. São suficientes nossa violência cotidiana, nossa corrupção, os Arrudas, os meninos do MEP, as idiossincrasias do Lula… Ainda há pouco, aqui em Estoril, posando para a foto oficial da XIX Cimeira Ibero-Americana mascando chiclete de boca aberta, nosso presidente encheu-me o peito de orgulho.
Melhor mesmo é sair a ouvir o som das ruas, o falar adorável dos portugueses, sobretudo aquela entonação ascendente do “não é?” ao final das frases. As expressões então… “Esmeoçámos e partimos por dois”, ou seja, parcelamos o pagamento. E os depoimentos de Maria, 78, e Manuel, 83, namorando há quatro meses? “Passamos horas à conversa sobre o passado, para nos darmos a conhecer. E disse-lhe “se gostasses mesmo de mim vinhas para ao pé de mim… Ela é uma mulher muito bonita, vistosa. Arranja-se bem e é sossegada, não vai na rua a olhar para os outros…” Delícia.
É grande o número de idosos em Portugal e as previsões apontam que serão tantos quantos os jovens em 2010. Daí que acabam de inaugurar o Instituto de Estudos para o Envelhecimento (IEE) buscando viabilizar políticas de apoio para que todos possam ter uma velhice mais digna. Realmente chama a atenção tantas cabecinhas brancas em praças, restaurantes, caminhadas “a olhar para o infinito do rio”, como disse Maria, assim, esmiuçando as horas e partindo a vida por dois. Ela e Manuel. Hoje e amanhã.
Ao casal, um carinho do blog. Ora pois.
O Convite
Não me importa saber como você ganha a vida.
Quero saber o que mais deseja e se ousa sonhar em
satisfazer seus anseios do seu coração.
Não me interessa saber sua idade.
Quero saber se você correria o risco de parecer tolo por amor,
pelo seu sonho, pela aventura de estar vivo.
Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua.
O que eu quero saber é se você já foi até o fundo de sua própria tristeza,
se as traições da vida o enriqueceram
ou se você se retraiu e se fechou, com medo de mais dor.
Quero saber se você consegue conviver com a dor,
a minha ou a sua, sem tentar escondê-la, disfarçá-la ou remediá-la.
Quero saber se você é capaz de conviver com a alegria,
a minha ou a sua, de dançar com total abandono
e deixar o êxtase penetrar até a ponta dos seus dedos,
sem nos advertir que sejamos cuidadosos, que sejamos realistas,
que nos lembremos das limitações da condição humana.
Não me interessa se a história que você me conta é verdadeira.
Quero saber se é capaz de desapontar o outro para se manter fiel a si mesmo.
Se é capaz de suportar uma acusação de traição e não trair sua própria alma,
ou ser infiel e, mesmo assim, ser digno de confiança.
Quero saber se você é capaz de enxergar a beleza no dia-a-dia,
ainda que ela não seja bonita,
e fazer dela a fonte da sua vida.
Quero saber se você consegue viver com o fracasso, o seu e o meu,
e ainda assim pôr-se de pé na beira do lago
e gritar para o reflexo prateado da lua cheia: “Sim!”
Não me interessa saber onde você mora ou quanto dinheiro tem.
Quero saber se, após uma noite de tristeza e desespero,
exausto e ferido até os ossos, é capaz de fazer o que precisa ser feito
para alimentar seus filhos.
Não me interessa quem você conhece ou como chegou até aqui.
Quero saber se vai permanecer no centro do fogo comigo sem recuar.
Não me interessa onde, o que ou com quem estudou.
Quero saber o que o sustenta, no seu íntimo, quando tudo mais desmorona.
Quero saber se é capaz de ficar só consigo mesmo e se
nos momentos vazios realmente gosta da sua companhia.
(Oriah Mountain Dreamer)

