Vampiros nossos de cada dia
novembro 3, 09

Dois animais, por asquerosos e irritantes, tiram-me do sério.
Um é o morcego, esse rato alado que, bolsa-amêndoa garantida, se instala com a família nas árvores em torno de casa. Mal o sol se põe eles batem ponto, obrigam-me a recolher os brinquedos e a chispar do jardim. O mais velho deles, imenso, sente-se posseiro, e toda santa tardinha faz o mesmo percurso: rasante na piscina, sobrevoada de inspeção na varanda e lá se vai farfalhante, feliz da vida por ter me azucrinado e me desconcentrado da leitura.
Dia desses, sozinha em casa, no computador do quarto, senti algo passar muito rápido por trás de mim. Só deu tempo de agarrar o celular, me trancar no closet, telefonar para os gêneros masculinos, pedir que encontrassem a criatura viva ou morta e me resgatassem dali. Sufoco, gente. Que isso.
O outro animal é o político, esse vampiro dos cofres públicos que, bolsa-nepotismo garantida, se instala nas árvores frondosas com os protegidos (entre outras morcegadas). Incapaz de solucionar nossos graves problemas, também nos obriga a abandonar o jardim. Afinal, não se brinca com voo rasante de balas perdidas. Coincidente é que o mais graúdo deles, o “cara” do morcegal, também se acha posseiro e sai atropelando tudo…
Feitos do mesmo barro, quase lama, variam as anomalias desses seres. Um, do alto de sua ignorância e preconceito, declara que “câncer de mama acontece em homens por causa de passeatas gays”. Outro, com seu oportunismo demagógico, lapida que “não há nada mais nojento do que o preconceito. Eu saí de casa e o meu filho de sete anos perguntou aonde eu ia. Disse que ia na parada gay e expliquei a ele. Qual é o problema de um homem gostar de outro homem e uma mulher gostar de outra mulher? É uma opção sexual de cada um. Isso é tão atrasado e medieval. Eu lamento que haja político atrasado”. Deveria ter levado o filho para assistir ao desfile, não? É muita hipocrisia… O que não se diz e não se faz à caça de votos…
Para minimizar o assédio dos morcegos do jardim, vou podar alguns galhos das amendoeiras. Solução simples. E temporária, eu sei.
Quanto às outras criaturas horripilantes, está mais complicado e sem prazo. Padecendo de terrível mutação, pululam feito bactéria. Crescem-lhes multiformes caras. E estão podres os galhos. Todos.

