Sinal de vida
novembro 24, 09

(Cascais, ontem, ao entardecer. Tanto mar…)
Espreito a mesa das palavras, ansiosa por voltar a elas, e constato que as horas roubadas à escrita me fazem sentir culpada. Ah, mas essa lua, esse vinho, esses doces e essa agenda cultural botam a gente gazeteira como o diabo… Tempo e espaço navegam todos os sentidos.
Por exemplo, saio agorinha a assistir “Mistérios de Lisboa”, filme baseado no guia turístico que Pessoa escreveu em 1925, pois que incomodava o poeta o desconhecimento de Portugal no estrangeiro, sua “descategorização civilizacional” e a incapacidade de se afirmar no mundo àquela época. Na verdade, Lisboa foi o único amor constante de Pessoa, a cidade que também foi sua aldeia, portas abertas pelo Tejo, plena de lembranças da infância, recantos, segredos.
E, na sequência, faço uma visita ao melhor embaixador de Portugal. Ele, o pastel de nata, essa delícia que dialoga com nossos ouvidos ronronando um croc-croc dos deuses, acompanhado de um Porto rubi. Comboio bão, sô.
Vou-me, pois, queridos do blog. Não sem antes deixar-vos um beijo e um (belíssimo!) poema do brasileiro Carlos Nejar. Confiram.
LUIZ VAZ DE CAMÕES
Não sou um tempo
ou uma cidade extinta.
Civilizei a língua
e foi reposta em cada verso.
E à fome, condenaram-me
os perversos e alguns
dos poderosos. Amei
a pátria injustamente
cega, como eu, num
dos olhos. E não pôde
ver-me enquanto vivo.
Regressarei a ela
com os ossos de meu sonho
precavido? E o idioma
não passa de um poema
salvo da espuma
e igual a mim, bebido
pelo sol de um país
que me desterra. E agora
me ergue no Convento
dos Jerônimos o túmulo,
que não morri.
Não morrerei, não
quero mais morrer.
Nem sou cativo ou mendigo
de uma pátria. Mas da língua
que me conhece e me espera.
E a razão que não me dais,
eu crio. Jamais pensei
ser pai de tantos filhos.
(foto de João Palmela)
(foto de Gemma Collier)


