Subia nesse palco, minha alma cheirava a talco…

A talco e lavanda. Comecei pequena. Tão infantil e exibidinha que, primeira apresentação, amiguinhas de mãos dadas, passo à frente, troncos flexionados para agradecer, quem vira de costas para receber os aplausos? Acertou.
Em dia de espetáculo, eu já acordava a mil. Contava os minutos para sentar diante do espelho da penteadeira de mamãe para que ela me maquiasse e me prendesse o cabelo em coque, acomodando fio por fio com gel, absolutamente fascinada por seu estojo de maquiagem, assim de rouge (ops, blush), batons cereja, sombras azuis…
Dentro da capa, pendurada de cabeça para baixo para ficar bem armada até a hora de vesti-la, brilhava a bailarina que mamãe mesma confeccionava, noites adentro, bordando o corpete com paetês, nacarados, pérolas, superpondo cada camada do tutu.
Durante anos essa era a maior emoção dos meus dezembros. Encontrar as colegas da academia, todas iguaizinhas, bonecas reproduzidas em série e, eufórica, atravessando a baía na barcaça, repassar oralmente com elas a coreografia. Chegar aos bastidores daquele teatro mágico, imenso, vestir-me no mesmo camarim por onde companhias estrangeiras de dança e suas grandes estrelas passavam, correr pela coxia sem deixar a ponta das sapatilhas fazer barulho e, boca de cena, respiração ofegante, entrar aos primeiros acordes do meu solo.
Gran finale, caprichar nos jetés, nas piruetas exaustivamente treinadas e, com aquela delicada reverência das bailarinas (agora de frente!), agradecer os aplausos que vinham do escurinho da plateia onde eu, em vão, num átimo, tentava avistar minha mãe para lhe dizer “bravo!” e lhe atirar todas as rosas do mundo, em retribuição pelo tanto que me fazia feliz e pelo que, invariavelmente, me diria na volta para casa: “Filha, você dançou tão bem! E sua bailarina era a mais bonita…”. Love you, mom.
Tais recordações vieram-me a propósito da reportagem de comemoração dos 100 anos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, quando artistas famosos contaram sobre estreias e sucessos ali vividos.
A blogueira, ainda que anônima, também sentiu-se parte da história. E, caçadora de si, escarafunchando o baú da infância, escolheu uma foto que “autografou” para os queridos do blog. :~D
Tempos felizes. A vida recendia a lavanda…



julho 17, 09 às 8:36 pm
Que primor! De menina, de ballerina, filha e amiga.
Sobre o ballet de escrita, minha querida, um adagio e também uma coda. O parceiro? a vida que as letras transpiram.
Gostei muito.Obrigada
Beijinho.
julho 18, 09 às 11:17 am
Você nunca me contou issooooo! Agradeceu de bumbum para a público?
Tia Selma, é por essas e tantas que eu te amo! Muito peça.
Dançar no Municipal do Rio deve ser maneiro mesmo.É lindo aquilo lá.
Beijosssss de sua eterna aluna.
julho 18, 09 às 1:08 pm
Olá minha querida Selma Barcellos, que bela recordação, a dança e a música sempre deixam maravilhosas marcas na nossa vida e também na alma. Obrigado por compartilhar esse lindo momento de sua vida com todos nós,parabéns.
Forte abraço
Caurosa
julho 18, 09 às 3:57 pm
Ô blogueira bailarina, fiquei emocionada! Voltei no tempo também.
Beijo muito carinhoso.
julho 18, 09 às 8:03 pm
Belos, muito belos: texto e bailarina.
Parabéns pelo blog. Cheguei nele pelo meu filho. Abraço, tia Selma.
julho 19, 09 às 10:35 am
Bom começar o domingo com uma leitura assim!
Ah, e obrigada pela foto ‘autografada’.
Beijos e ótimo domingo.
julho 19, 09 às 11:54 am
Que fofa!
Parabéns.
Beijos,
Tati.
julho 20, 09 às 1:31 pm
Muito lindinha! E não mudou nada…
Bjs,
Pedro
julho 20, 09 às 1:55 pm
Pedro Denardi!!! Por onde anda? Obrigada pela visita e pelo elogio. Não sei se lindinha, mas que continuo bailando pela vida… não tenha dúvida.
Abraços saudosos, querido amigo.
Apareça mais!
julho 20, 09 às 2:00 pm
Ai, que fofaaaa!!!Que linda foto!
Tenho certeza que as netinhas serão iguais.
beijocasssss!!!
julho 20, 09 às 7:48 pm
Bom ter boas recordações,dá pra ver vc. e sua mãe amigas,ela tão orgulhosa de você:Selminha,minha filha,venha cá,ainda me lembro.
Tenho boas recordações daquele casarão.
Beijos,
julho 20, 09 às 9:32 pm
Bom… ainda assomando e levo com esta na cara. E nos olhos. (Fecho. Mania que são rios).
Vou armar-me em egoísta e zelosa dessa fotografia tua: Eu sou uma querida do teu blog, logo é para mim!
Tanto mais pelo que trazes nos pés. Ai, que saudades dessas (duas) pontas ( e ainda sem poder por nem uma no meu pied!).
Belissima bailarina de letras, de arabesque, de jeté, de piruette.
Fico sempre bem por dentro quando penso que nos cruzámos neste virtual, que ganho para mim, caramba!
E agora vénia, Senhora, não de traseiro, mas entregando-lhe o ramo que merece justissimo.
Um beijo
Lá fora os ralos e as cigarras esfregam as patas. Perdoo-lhes o Estio pelo sonhos que me embalam.
julho 21, 09 às 4:37 pm
Mas que linda, Selma!!!!!!!!!!
Digna de Hollywood! Poderia ter sido uma criança do cinema, com certeza!
Bjs