Os “inquadráveis”

(Charge do dia- JB)
Na rede dos meus sábados, releio um dos contos fantásticos de Jorge Luis Borges - “Utopia de um homem que está cansado” - onde se passa o seguinte diálogo:
“_ Que aconteceu com os governos?
_ Segundo a tradição foram caindo gradualmente em desuso. Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham tarifas, confiscavam fortunas, ordenavam prisões e pretendiam impor a censura e ninguém no planeta acatava. A imprensa deixou de publicar suas colaborações e efígies. Os políticos tiveram de procurar ofícios honestos; alguns foram bons cômicos ou bons curandeiros. A realidade, sem dúvida, terá sido mais complexa do que este resumo.”
Ao redor, a família interrompe minha viagem, nem tão surreal assim no que tange à fala do personagem borgeano, com comentários sobre a página de “O Globo” com a sequência de efígies (prontuário policial?) do time que irá compor o Conselho de Ética e brincar de constranger Sarney, na CPI da Petrobrás, antes de saírem todos para a pizza que o “vício da amizade” proporciona.
Olho para suas caras abjetas, observo quem tem o físico “do rolo” para cômico ou curandeiro, penso no quanto somos ridicularizados – nós, os que pagamos suas plásticas, farras e palácios – e em nossa inércia diante desse já banalizado jogo do – “desconheço, excelência, não ouvi, não vi, foi erro do contador” – chamado CPI.
Acoplada àquele circo de horrores, vem a última balela da língua ignorantemente presa de Lula, ao ser indagado sobre tudo isso que aí está: “Acho engraçado (sic) a ideia de que o presidente da República enquadra o Senado. Os senadores são inquadráveis” (sic).
Ah, Borges, político é raça “inquadrável”… Jamais conseguirá exercer ofícios honestos. Isso é coisa para o “otariado”. A realidade é, de fato, muito mais complexa.


julho 11, 09 às 9:46 pm
Cara Selma, o circo vem aí. Tudo de novo. Bem que a gente poderia dizer “Basta!”, ao invés de “haja paciência”.
Abs
julho 12, 09 às 1:23 pm
Uma amiga querida me pergunta por email o nome do livro do Borges. Lá vai: “O livro de areia”.
Beijocas, Clau!
julho 12, 09 às 9:26 pm
Mas é gozação esse Sarney, Lula, PT. Pra falar a verdade,tia Selma, não escapa ninguém, de partido nenhum.
Pena a minha geração pensar assim, né?
Beijossssss.
julho 13, 09 às 7:35 am
Bom dia!!!
Meus parabéns pelo comentário bastante próspero, espirituoso e atual.
Recomendo, ainda, a leitura de “A Literatura em Perigo”, de Tudorov.
Parabéns
julho 13, 09 às 2:19 pm
Grata, Marco, e bem-vindo ao blog.
Se te apraz a poesia do Borges, não deixe de ler “Esse Ofício do Verso”. É para cabeceira.
Abraço afetuoso.