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Subia nesse palco, minha alma cheirava a talco…
julho 17, 09

A talco e lavanda. Comecei pequena. Tão infantil e exibidinha que, primeira apresentação, amiguinhas de mãos dadas, passo à frente, troncos flexionados para agradecer, quem vira de costas para receber os aplausos? Acertou.
Em dia de espetáculo, eu já acordava a mil. Contava os minutos para sentar diante do espelho da penteadeira de mamãe para que ela me maquiasse e me prendesse o cabelo em coque, acomodando fio por fio com gel, absolutamente fascinada por seu estojo de maquiagem, assim de rouge (ops, blush), batons cereja, sombras azuis…
Dentro da capa, pendurada de cabeça para baixo para ficar bem armada até a hora de vesti-la, brilhava a bailarina que mamãe mesma confeccionava, noites adentro, bordando o corpete com paetês, nacarados, pérolas, superpondo cada camada do tutu.
Durante anos essa era a maior emoção dos meus dezembros. Encontrar as colegas da academia, todas iguaizinhas, bonecas reproduzidas em série e, eufórica, atravessando a baía na barcaça, repassar oralmente com elas a coreografia. Chegar aos bastidores daquele teatro mágico, imenso, vestir-me no mesmo camarim por onde companhias estrangeiras de dança e suas grandes estrelas passavam, correr pela coxia sem deixar a ponta das sapatilhas fazer barulho e, boca de cena, respiração ofegante, entrar aos primeiros acordes do meu solo.
Gran finale, caprichar nos jetés, nas piruetas exaustivamente treinadas e, com aquela delicada reverência das bailarinas (agora de frente!), agradecer os aplausos que vinham do escurinho da plateia onde eu, em vão, num átimo, tentava avistar minha mãe para lhe dizer “bravo!” e lhe atirar todas as rosas do mundo, em retribuição pelo tanto que me fazia feliz e pelo que, invariavelmente, me diria na volta para casa: “Filha, você dançou tão bem! E sua bailarina era a mais bonita…”. Love you, mom.
Tais recordações vieram-me a propósito da reportagem de comemoração dos 100 anos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, quando artistas famosos contaram sobre estreias e sucessos ali vividos.
A blogueira, ainda que anônima, também sentiu-se parte da história. E, caçadora de si, escarafunchando o baú da infância, escolheu uma foto que “autografou” para os queridos do blog. :~D
Tempos felizes. A vida recendia a lavanda…


