Os “inquadráveis”
julho 11, 09

(Charge do dia- JB)
Na rede dos meus sábados, releio um dos contos fantásticos de Jorge Luis Borges - “Utopia de um homem que está cansado” - onde se passa o seguinte diálogo:
“_ Que aconteceu com os governos?
_ Segundo a tradição foram caindo gradualmente em desuso. Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham tarifas, confiscavam fortunas, ordenavam prisões e pretendiam impor a censura e ninguém no planeta acatava. A imprensa deixou de publicar suas colaborações e efígies. Os políticos tiveram de procurar ofícios honestos; alguns foram bons cômicos ou bons curandeiros. A realidade, sem dúvida, terá sido mais complexa do que este resumo.”
Ao redor, a família interrompe minha viagem, nem tão surreal assim no que tange à fala do personagem borgeano, com comentários sobre a página de “O Globo” com a sequência de efígies (prontuário policial?) do time que irá compor o Conselho de Ética e brincar de constranger Sarney, na CPI da Petrobrás, antes de saírem todos para a pizza que o “vício da amizade” proporciona.
Olho para suas caras abjetas, observo quem tem o físico “do rolo” para cômico ou curandeiro, penso no quanto somos ridicularizados -- nós, os que pagamos suas plásticas, farras e palácios -- e em nossa inércia diante desse já banalizado jogo do -- “desconheço, excelência, não ouvi, não vi, foi erro do contador” -- chamado CPI.
Acoplada àquele circo de horrores, vem a última balela da língua ignorantemente presa de Lula, ao ser indagado sobre tudo isso que aí está: “Acho engraçado (sic) a ideia de que o presidente da República enquadra o Senado. Os senadores são inquadráveis” (sic).
Ah, Borges, político é raça “inquadrável”… Jamais conseguirá exercer ofícios honestos. Isso é coisa para o “otariado”. A realidade é, de fato, muito mais complexa.




