Quem tem medo do Jornalista Mau?

Lia muito para meus alunos, não importava a faixa etária, valia a discussão posterior, a delícia de um livro chamado ‘A Verdadeira História dos Três Porquinhos’, de Jon Scieszka. Nele, o Lobo Mau, jamais ouvido, apresentava a sua versão dos fatos. Direito inalienável.
Argumentos de defesa: espirros descontrolados por uma forte gripe, à porta das frágeis casas de palha e lenha dos porquinhos, fazendo-as voar pelos ares; natureza carnívora e consciência do não-desperdício de alimentos, diante daquelas delicinhas já mortas, verdadeiros manjares; educação com que batia à porta para pedir uma mísera xícara de açúcar para o bolo de sua vovó, sendo sempre recebido com grosseria; honra de sua avozinha chamada de velha e mandada às favas pelo terceiro porquinho, levando-os a se engalfinharem; precipitação e falta de critério dos jornalistas que chegaram naquele exato momento e “acharam que a história de um sujeito doente pedindo açúcar não era muito emocionante e então enfeitaram e exageraram a história com todo aquele negócio de ‘bufar, assoprar e derrubar sua casa’. E fizeram de mim o Lobo Mau.’” Atrás das grades, lamentava ter sido vítima de pré-julgamento, de cerceamento de defesa e de cruel enxovalhamento de seu nome junto às crianças do mundo inteiro.
Ao final de cada leitura, eu trazia o mote dos jornalistas para a vida real e contava aos alunos o caso exemplar daqueles donos da Escola Base que tiveram sua reputação destruída pela imprensa, em questão de horas, sem provas cabais. Dispensável dizer que pelo júri simulado que montavam, o Lobo era invariavelmente absolvido.
E por que tudo isso me veio? Pela notícia do fim da exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, com o que, aliás, concordo. Talento e vocação não vêm com diploma. Domínio da língua, formação de cunho humanista e bagagem cultural, se o jornalista não os tem, o próprio mercado irá rifá-lo. E técnica se aprende mesmo é no dia a dia das redações. Até porque bons cursos de Jornalismo, como o que fiz na PUC, tendo Dines, Walter Poyares e outras feras ministrando aulas, não há mais. Raríssimas exceções, o que se vê hoje é um rentável pague e pegue seu canudo.
O que dá lastro ao jornalista é exercer criteriosamente sua profissão, ser isento, ter consciência de seu poder de causar danos irreversíveis à imagem de terceiros, não prejulgar (no caso de determinados políticos de Brasília, uma consulta a seus prontuários pode até bastar).
Com ou sem diploma, amigos, o que verdadeiramente faz a diferença é ter Ética. No mais é carochinha.


junho 19, 09 às 9:14 pm
Aqui sim! Uma realidade que banhou o mundo, sem fronteiras.(em alusão ao teu post anterior)
E não dignifica em nada o nome da profissão. Mas no fundo, creio, é tudo uma questão de consciência politica, espinha dorsal, carácter. E o canudo não traz agarrado esses principios – que felizmente – não são negociáveis.
Mais uma surpresa que aqui encontro neste novo registo. Sabe bem chegar e levar no peito um verbo destes.
Um beijo, bom fim de semana.
O Tejo está prata, lua invejosa.
junho 19, 09 às 9:16 pm
Sem nada a ver…
Permites que te faça folha da Árvore?
Obrigado, beijo a Selma
junho 20, 09 às 1:06 am
Gasolina, se és seiva para minhas ‘escrivinhações’, como recusar ser tua folha? Por favor.
Aliás, nem pedi permissão para linkar-te. Fui de peito aberto, percebeste? Perdão.
Beijocas.
junho 20, 09 às 2:09 pm
Selma, a ética, palavrinha tão esquecida nos dias de hoje desse nosso Brasil varonil, deve permear toda e qualquer profissão. Mas, no caso de jornalistas, pela importância que a imprensa exerce, ela é primordial mesmo.
Quanto ao diploma, concordo com você. As empresas que façam a triagem de seus competentes e responsáveis profissionais.
Abraços e bom fim de semana.
RR
junho 20, 09 às 3:34 pm
Tia, quem tem o diploma fica arrasado, não? Eu ficaria. Deve dar um vazio, meio que sentindo que foi perda de tempo. Não sei se estou te explicando direito.
Beijosssssss!
E os filhotes, tia?
junho 20, 09 às 9:29 pm
Agora já está. Nada a fazer. A folha agarrou-se e não tomba, nem mesmo no Outono.
Obrigado. O calor tem destas coisas… Quando menos se espera lá vem uma lufada de ar fresco.
Beijo a ti, pelo oxigénio
junho 20, 09 às 10:18 pm
Selma, cheguei ao seu blog por recomendação de amigos. Venho lendo e apreciando calmamente os posts. Grata surpresa.
Parabéns!
Um abraço.
junho 20, 09 às 11:30 pm
Olá, Matilde!
Apareça sempre! O prazer é meu em tê-la parte dessa blogosfera.
Abraço carinhoso.
junho 21, 09 às 7:24 pm
Cadê onde está? Se andar por suas terras p.f. mande-a rapidinha de avião, que eu vou mesmo buscar, juro.
Ai, minha querida isto é mesmo coisa perdida…
Bj.