O post do poste

Tarde luminosa de outono, varanda do restaurante, olhando o mar, interrompo a garfada, incrédula.
Indivíduo bem vestido (não era mendigo, doente mental, nem bêbado, pois o vi caminhar normalmente) abre a braguilha e faz xixi no poste. De frente para todos. Despudoradamente.
Uns fingem não ver, outros balançam a cabeça, alguns riem, garçons acostumados à rotina da cena não param seus serviços e os guardas da cabine próxima, nem aí.
O bárbaro finaliza o ato e sai caminhando com a naturalidade com que chegou. Sem pressa. Se bobear, assobiava. Seu gesto não é inusitado, faz parte do cotidiano da cidade.
Bateu um desânimo tão devastador… Caiu a ficha de que, sem retorno, estamos perdendo o respeito por nós. Entediados, passivos e complacentes, andamos esquecendo o sentido de indignação. Desaprendemos de cobrar direitos e exigir punição para os que infringem códigos mínimos de civilidade e ética. E máximos também. Afinal, há muito servimos de postes para nossos políticos.
Sem falar na saudade de tempos mais delicados, quando os homens românticos (jamais os mijões!) abraçavam-se aos postes, fazendo-nos declarações de amor, dançando e cantando na chuva…
O toró hoje é de outra natureza. Chove falta de vergonha. Brotam caras de pau.


junho 17, 09 às 10:51 am
Minha querida amiga Selma Barcellos, concordo plenamente com você, o homem, às vezes, perde a dignidade, a postura,a educação e se transforma num troglodita sem controle. No entanto, cria momentos de pura magia, como esta passagem maravilhosa do “Cantando na Chuva”. Eu adoro este filme. Gostei do trocadilho ( O POST DO POSTE).
Paz e inspiração,
forte abraço.
Caurosa
junho 17, 09 às 3:26 pm
É uma vergonha mesmo! Às vezes tem banheiro químico e os bárbaros, como você diz, preferem fazer fora.
A cidade cheira mal!
Beijossssss
junho 17, 09 às 6:48 pm
Assino embaixo, querida!!!
Às vezes da um desânimo, né…
Bjocas
junho 17, 09 às 7:13 pm
Cara Selma, por alguns minutos me abstraí do infrator e me reportei ao filme da foto. Grandes lembranças… Gratíssimo.
Abraços para ti.
junho 17, 09 às 10:12 pm
O mundo vai mal, os homens andam mal.
Aqui ainda não assisti a tal grau de degradação, mas o isolamento da cidade, a manifesta abstracção dos seus pares, a correría desenfreada para atingir uma meta estão a deixar a besta vestir-se de griffe, passando “quase” despercebida.
Sinais do tempo? Não sei.
Sei que no tempo de Gene era bonito dizer Bom Dia e Obrigado. Eu gostava, gosto, creio que nunca vou deixar de o apreciar.
E dançar e cantar à chuva, igualmente. Mesmo que me chamem louca.
Um beijo a Selma.
Pela frescura da chuva trazida à canícula desta noite lusitana.
junho 18, 09 às 2:15 pm
Ao que parece, ele não se esqueceu do sentido da urgência.
Beijo!
junho 21, 09 às 7:22 pm
“mudam-se os tempos mudam-se as vontades” dizia o nosso Luís Vaz de Camões
Porém, eu acrescento, mudam-se as concepçõe para não lhe chamar ewducação, que foi coisa que desandou… assim…
Bj.