RECEITA PARA LAVAR PALAVRA SUJA
Mergulhar a palavra suja em água sanitária. Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia. Algumas palavras quando alvejadas ao sol adquirem consistência de certeza. Por exemplo, a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas, que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente. São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tiram sujeira difícil, mas nada. Toda tentativa de lavar piedade foi sempre em vão.
Agora nunca vi palavra tão suja como perda. Perda e morte na medida que são alvejadas soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura, que é capaz de esvaziar o vigor da língua. O aconselhado nesse caso é mantê-la sempre de molho em um amaciante de boa qualidade.
Agora se o que você quer é somente aliviar as palavras de uso diário, pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar. O perigo neste caso é misturar palavras que mancham no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo. A culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras sob risco de perderem o sentido. A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva, produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras é saber reconhecer uma palavra limpa. Conviva com a palavra durante alguns dias. Deixe que se misture em seus gestos, que passeie pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite, não a seu lado mas sobre seu corpo. Enquanto você dorme, a palavra plantada em sua carne, prolifera em toda sua possibilidade. Se puder suportar essa convivência até não mais perceber a presença dela, então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.
(Viviane Mosé, psicóloga e psicanalista, é autora de “Nietzsche e a grande política da linguagem”, sua tese de doutorado, dentre outros livros de poesia e prosa. )


junho 25, 09 às 3:41 pm
Mas é um belo texto mesmo, Selma. Apenas acrescentaria ao balde d’água sanitária, esquecendo-a lá dentro até que desapareça,a palavra inveja. Como é destrutiva!
RR
junho 25, 09 às 8:05 pm
Tem sido delicioso passar pelo seu blog, Selma.
Eu já conhecia o trabalho da Viviane Mosé e este texto é, especialmente, muito interessante.
Abraços.
Matilde
junho 25, 09 às 9:22 pm
Cara Selma, bonito toda vida.
Que a gente tenha no coração e na boca sempre palavras limpas. Eu tento,ao menos.
Abraço.
junho 26, 09 às 3:43 am
O último parágrafo é sublime. Porque verdadeiro.
Mas está a caír em desuso. Respeitar a palavra devería antes de tudo, respeitar-se a si mesmo, ter carácter limpo, compreender o poder que as palavras podem atingir. Para o bem e para o mal.
Beijo Selma.
Posso guardar a Tia?
julho 29, 09 às 4:28 am
Eu deixaria de molho até que encolhessem ou se desfizessem, as palavras inveja e intriga.