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Quem tem medo do Jornalista Mau?
junho 19, 09

Lia muito para meus alunos, não importava a faixa etária, valia a discussão posterior, a delícia de um livro chamado ‘A Verdadeira História dos Três Porquinhos’, de Jon Scieszka. Nele, o Lobo Mau, jamais ouvido, apresentava a sua versão dos fatos. Direito inalienável.
Argumentos de defesa: espirros descontrolados por uma forte gripe, à porta das frágeis casas de palha e lenha dos porquinhos, fazendo-as voar pelos ares; natureza carnívora e consciência do não-desperdício de alimentos, diante daquelas delicinhas já mortas, verdadeiros manjares; educação com que batia à porta para pedir uma mísera xícara de açúcar para o bolo de sua vovó, sendo sempre recebido com grosseria; honra de sua avozinha chamada de velha e mandada às favas pelo terceiro porquinho, levando-os a se engalfinharem; precipitação e falta de critério dos jornalistas que chegaram naquele exato momento e “acharam que a história de um sujeito doente pedindo açúcar não era muito emocionante e então enfeitaram e exageraram a história com todo aquele negócio de ‘bufar, assoprar e derrubar sua casa’. E fizeram de mim o Lobo Mau.’” Atrás das grades, lamentava ter sido vítima de pré-julgamento, de cerceamento de defesa e de cruel enxovalhamento de seu nome junto às crianças do mundo inteiro.
Ao final de cada leitura, eu trazia o mote dos jornalistas para a vida real e contava aos alunos o caso exemplar daqueles donos da Escola Base que tiveram sua reputação destruída pela imprensa, em questão de horas, sem provas cabais. Dispensável dizer que pelo júri simulado que montavam, o Lobo era invariavelmente absolvido.
E por que tudo isso me veio? Pela notícia do fim da exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, com o que, aliás, concordo. Talento e vocação não vêm com diploma. Domínio da língua, formação de cunho humanista e bagagem cultural, se o jornalista não os tem, o próprio mercado irá rifá-lo. E técnica se aprende mesmo é no dia a dia das redações. Até porque bons cursos de Jornalismo, como o que fiz na PUC, tendo Dines, Walter Poyares e outras feras ministrando aulas, não há mais. Raríssimas exceções, o que se vê hoje é um rentável pague e pegue seu canudo.
O que dá lastro ao jornalista é exercer criteriosamente sua profissão, ser isento, ter consciência de seu poder de causar danos irreversíveis à imagem de terceiros, não prejulgar (no caso de determinados políticos de Brasília, uma consulta a seus prontuários pode até bastar).
Com ou sem diploma, amigos, o que verdadeiramente faz a diferença é ter Ética. No mais é carochinha.

