Demorô, vó!
Você passa a vida acarinhando seus livros prediletos, sentindo até o cheirinho da época em que foram lidos, tirando-lhes o pó, protegendo-os das traças para entregá-los em ato solene aos netinhos e o que acontece? Uma engenhoca sedutora, mimo digital com milhares de livros eletrônicos, pouco mais de 200g e espessura milimétrica, chega para desbundar sua biblioteca hereditária. É duro.
Serão e-readers os netos… Que argumentos usarei para que se encantem e viajem nos meus barquinhos de papel? Como convencê-los de que aqueles tesouros arqueológicos na estante da vovó têm valor inestimável?
Missão impossível concorrer com o barato de virar páginas a um simples toque; de ver uma orelha virtual registrar onde se interrompeu a leitura (psiu, não espalhem, eu marcava livro com pétala de flor…); de usar óculos e poder perdê-los entre almofadas -- o corpo da letra amplia; de esbarrar em palavra desconhecida e ter o significado ali, ao pé da página (repouse em paz, Aurelião); de cansar de ler silenciosamente e uma voz seguir adiante. Com música ao fundo. Covardia.
Mas tem lá seus pontos fracos o brinquedinho… Nele tudo aparece em preto, branco ou cinza e a cartela da vida é outra. A voz que lê usa a mesma entonação para uma ata de condomínio e um poema de Bandeira. Sem contar que não permite aquele diálogo incessante a que se referia Maurois -- “o livro fala e a alma responde”. Não tem perfume. Jamais será arte. E tenho dito.
Porém, como ele representa menos árvores derrubadas, soluciona problemas de ordem prática e -- maravilha! -- pode ser cura para azia e preguiça de ler de crianças, jovens, uns e outros… prometo tentar.
Se cansar de ficar “muderninha”, tem erro não. Os netos saberão onde me encontrar. Periga só de cair pirlimpimpim da estante e, enfeitiçados, rolarmos no tapete com os tuaregues, o saci, o Quixote…



maio 26, 09 às 6:16 pm
Tia querida, como os netos da melhor professora de redação e criação que tive, vão deixar de se deliciar com os livros de papel? E a carga genética, não conta?
Beijossssss.
maio 26, 09 às 6:20 pm
Olá, Selma!
A sua visita foi uma bela surpresa: pude conhecer este espaço, tão luminoso, refrescante, e repleto de textos tão bem escritos e aliciantes
Por favor, volte sempre, é bem-vinda!
Também será um prazer, para mim, acompanhar tudo por aqui…
maio 27, 09 às 3:28 pm
Fala, Selma! Pode continuar guardando os livros para as crianças.
Sentar em colo de vó, ouvindo e ‘lendo’ histórias com ela, não tem preço. Nem substituição.
Abraços.
maio 27, 09 às 9:51 pm
Querida Selma, claro que a ‘engenhoca’, como você diz, simplifica bastante. Sobretudo por deixar de abrir dicionários que, desde criança, odeio. Mas um bom livro terá sempre seu lugar.
Beijos.
maio 27, 09 às 9:59 pm
Nem pensar! Eu também marcava livro com pétala de flor. Não tem como imitar peso de livro na mochila, cheiro de livro novo, cheiro de livro velho e vozes que a gente imagina lendo só para a gente… Quanto à vertente ecológica, há outras maneiras. Do meu livrinho de papel é que não abro mão!!!
Excelente texto. E, ah, já te incluí no Meme musical. É todo seu, não vejo a hora de ler!
maio 29, 09 às 6:57 pm
Minha querida,
Pense no estrondo de uma vóvó hipercibernáutica de kindle em punho, numa dessas maravilhosas praias com a prol de netos em redor. Chapéu de palhinha de abas caídas, maillot gostoso, mão e pé bem nos trinques, pernas bronzeadas, lábios vermelhos e num tom aflautado lendo histórias aos pequenos louros de olhos bem abertos e bocas gulosas chupando um sorvete meio derretido. Ei, o quadro é perfeito não é? Pois eu e você seremos assim… e esta hem? que tal vovó. com ? Inté…
Um beijoca.com.
junho 1, 09 às 4:01 pm
Pois eu tammbém não abro mão dos meus clássicos em papel e encanto. MAs confesso que a ideia de preservar árvores me é muito simpática…
Bjs
julho 28, 10 às 4:58 pm
Nada ofuscará o prazer em ler um livro, e viajar na magia que a leitura parágrafo a parágrafo, página a página, propicia.