Requebros febris
O premiado blog aArtmus repassou-me um desafio recebido do igualmente ótimo Cantochão. Abrisse eu o livro a meu lado na página 161, fosse à sexta linha e partisse dali com outra história. Assim fiz.
A frase (verso) é do livro que releio - “Tantas palavras” – uma reportagem biográfica de Humberto Werneck sobre Chico Buarque:
“Mas eis que chega a roda-viva…”
… e escancara a real para Eunice. Fim de festa. Carnaval agora só no ano que vem. Sacolejando no trem de volta para casa, olhos fechados, som da bateria e dos aplausos da plateia ainda ecoando nos ouvidos e no coração, rebobina a fita. A sua ala das baianas, girando feito pião, flutuando na avenida, fora a alma da escola.
Dia quase amanhecendo, Eunice sobe o morro pesando um paquiderme. Chega ao barraco e despe, roda por roda, a fantasia. Desaba no sofá, apenas por algumas horinhas. O trabalho a espera na cidade que ainda dorme.
Entre um gole e uma assoprada no café, filma com os olhos o barraco. Um frege só. Lantejoulas e retalhos por todo lado, vestígios das noites em claro, fantasia por terminar, anáguas por engomar, adereços por montar. Loucura.
E decide se dar folga, tirar o dia para colocar o barraco e as emoções em ordem. Afinal, há quantos anos repetia o ritual de ir trabalhar depois do desfile, exausta, só para não deixar a patroa na mão sem seus sucos e pratos de curar ressaca? Fosse à merda, a madame. Com todo respeito.
Porém, ao aparecer no outro dia, assim, fora da rotina, teve jeito não. A distinta fez o acerto de contas, deu-lhe a passagem de volta e um até nunca. Eunice gelou. Tantas dívidas…
Daí que os orixás se apiedam e buzinam em seu ouvido jogar na Sena. Obedece. Erra por dois números. Fazer o quê?
Recebe nova chance dos guias. Andar de ônibus, não mais de trem. Obedece. A seu lado, um senhor bem apessoado, jeitão tudo a ver, vai logo puxando papo. Conversa vai, conversa vem, ele conhecia Eunice de vista dos ensaios na quadra da escola e era fã de sua morenice baiana e seus requebros febris.
Viagem longa, trocam muitas confidências e algumas coincidências. Tipo uma cartela da loto (há dias esquecida no bolso da camisa) com os exatos números que Eunice acertara e os que lhe haviam escapado para a sorte grande.
Estão conversando até hoje. O mundo gira e a baiana roda. Fazer o quê?



fevereiro 17, 09 às 8:35 pm
clap, clap, clap.! Parabéns!
E o carnaval sincopado desceu num belo conto.
Tão vivo , porém tão humano.
Gostei imenso.
Um beijinho.
fevereiro 18, 09 às 3:06 am
“E aí rapaziada, tudo mais ou menos? Eu também queria saber criar textos assim!” hahahaha!!! Desculpe a brincadeira do invejoso. Mas foi o que me ocorreu pra lhe dizer – do nosso jeito brincalhão e brasileiro de ser, pegando carona na abertura do tríduo Momesco – devo assumir que eu adoraria ter a sua criatividade literária! Beijos e obrigada por essa aula de literatura. Lindo! Amei!
fevereiro 23, 09 às 12:48 pm
Selminha! Sempre entrarás pelo “Portão Grande” pela criatividade, sensibilidade, alegria e leveza de seus posts, espelho da sua maneira de ser. Os resultados são o reconhecimento de seus leitores e das premiações,com destaque para o Prêmio Dardos (por indicação da aArtmus) e o da ABL, pelo “Por que Poesia em tempos de indigência”, primeiro texto deste blog.
Bjs.