Em tempos de crise, cultivemos nosso jardim
Meus caros, se já conhecem a notícia a seguir, vale repensar. Se não, o blog fica feliz com a “primeira mão”.
Tempos atrás, o jornal Washington Post elaborou uma pesquisa sobre percepção, gosto e prioridades das pessoas. Para isso, colocou um rapaz de jeans e boné tocando violino, por quase uma hora, numa manhã fria de janeiro, em hora de rush, com milhares de pessoas circulando a caminho do trabalho, numa estação de metrô de Washington D.C.
Os pesquisadores observaram que a maioria das pessoas não parou (apenas seis o fizeram), algumas pararam por segundos e partiram consultando seus relógios e outras apenas jogaram dinheiro, sem sequer interromperem o passo. As únicas pessoas a quem a cena verdadeiramente sensibilizou foram as crianças, que pararam, mas foram logo puxadas pelas mães para que não se atrasassem. Ao final da apresentação, nenhum aplauso, $32 no chapéu.
O que ninguém sabia é que aquele músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, que havia tocado uma das mais difíceis e belas peças de Bach e que seu violino valia algo em torno de 3.5 milhões de dólares. Sem contar que, dias antes, Joshua lotara um teatro em Boston, com o ingresso mais barato custando $100.
À pesquisa, seguiram-se alguns questionamentos: será que em local e hora inadequados conseguimos perceber beleza? Paramos para apreciá-la? Reconhecemos talento num contexto inesperado? Se não conseguimos parar e ouvir um dos melhores músicos da atualidade, com o mais perfeito violino já fabricado, tocando uma das mais fantásticas músicas jamais compostas, quantas outras maravilhas estamos perdendo em nossas vidas?
Mas, efetivamente, o que me remeteu a essa notícia requentada, na contramão de elementar regra de jornalismo?
É que, amigos, em tempos tais que vivemos, de insuportável insanidade, desmandos com a natureza, guerras sem fim, especulações mirabolantes e bolhas irresponsáveis que estouram na cara do mundo e o arrastam , com os olhos embaçados, para dentro do poço, tenho procurado agir como aquelas crianças que, tocadas pela beleza, param para apreciá-la.
Tenho dado um tempo para descobrir maravilhas, ouvir boa música, apurar minha espiritualidade e cultivar meu jardim, como quis Voltaire. Tenho-me concedido, na medida do possível, um saudável distanciamento da aspereza cotidiana e convidado minha criança para brincar. Sabem aquele verso do Milton “toda vez que a bruxa me assombra, o menino me dá a mão…”? Assim.
Como Joshua, vou percutindo meu instrumento -- a palavra, companheira inseparável -- para todos que passam, apressados ou nem tanto, por minha estação. Também não ouço aplausos. Mas me sinto no lucro. Não o dos especuladores ensandecidos, mas o verdadeiro e nada volátil lucro dos que são, de alguma forma, vetores de sentimentos, emoções e ideias.
No mais é isso.
Se lhes aprouver, eis um trecho do vídeo de Joshua Bell naquela (fria) manhã.


janeiro 9, 09 às 12:41 am
Claudinha diz:
Enfim ,com a ajuda de meus filhotes ,consegui “encontrá-la”!!! Amei seus textos, verdadeiros deleites prazerosos a cada letra registrada; se antes minha admiração por vc era grande , não imagina o quanto ela aumentou depois desta minha “tour” pelo seu blog. Já vou tomar lugar na fila de seus fãs .
Mil beijinhos de sua nova leitora!!!
janeiro 9, 09 às 12:43 am
Obrigada, Claudinha! Passe sempre por aqui com seus comentários estimulantes!
Beijocas carinhosas!
Selminha
janeiro 9, 09 às 1:55 pm
Foi uma alegria ter a sua visita no blog Sempreviva! Obrigado! Selma querida, adorei esse post de hoje! Sem medo de errar, eu diria que ele estimula a sensação de liberdade para a criança que mora em nós. E mais, nos instiga a abrir o coração e os olhos, para melhor enxergar o mundo. Continue por favor! vou prosseguir com você. Beijo no coração.
janeiro 22, 09 às 9:50 pm
O nosso jardim… a sementeira de um tempo que talvez floresça. Oxalá.
Não são os jardins o descanso do espirito? Poisbem, onde andam?. onde param? para além do zénite da vontade, adormecidos na neblina da vida…
Bjs.
janeiro 23, 09 às 11:38 pm
Selminha querida, adorei as recentes novidades! Mateso deixou-me um post no blog Sempreviva e você teve a delicadeza de retribuir o link. Obrigada linda! Saudações ao Luiz! Beijo pra você! Bom final de semana!
janeiro 27, 09 às 11:12 am
Tia, suas palavras s~ao deliciosas de ler. N~ao pare nunca!
Muitos bjos.