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Em tempos de crise, cultivemos nosso jardim
janeiro 8, 09
Meus caros, se já conhecem a notícia a seguir, vale repensar. Se não, o blog fica feliz com a “primeira mão”.
Tempos atrás, o jornal Washington Post elaborou uma pesquisa sobre percepção, gosto e prioridades das pessoas. Para isso, colocou um rapaz de jeans e boné tocando violino, por quase uma hora, numa manhã fria de janeiro, em hora de rush, com milhares de pessoas circulando a caminho do trabalho, numa estação de metrô de Washington D.C.
Os pesquisadores observaram que a maioria das pessoas não parou (apenas seis o fizeram), algumas pararam por segundos e partiram consultando seus relógios e outras apenas jogaram dinheiro, sem sequer interromperem o passo. As únicas pessoas a quem a cena verdadeiramente sensibilizou foram as crianças, que pararam, mas foram logo puxadas pelas mães para que não se atrasassem. Ao final da apresentação, nenhum aplauso, $32 no chapéu.
O que ninguém sabia é que aquele músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, que havia tocado uma das mais difíceis e belas peças de Bach e que seu violino valia algo em torno de 3.5 milhões de dólares. Sem contar que, dias antes, Joshua lotara um teatro em Boston, com o ingresso mais barato custando $100.
À pesquisa, seguiram-se alguns questionamentos: será que em local e hora inadequados conseguimos perceber beleza? Paramos para apreciá-la? Reconhecemos talento num contexto inesperado? Se não conseguimos parar e ouvir um dos melhores músicos da atualidade, com o mais perfeito violino já fabricado, tocando uma das mais fantásticas músicas jamais compostas, quantas outras maravilhas estamos perdendo em nossas vidas?
Mas, efetivamente, o que me remeteu a essa notícia requentada, na contramão de elementar regra de jornalismo?
É que, amigos, em tempos tais que vivemos, de insuportável insanidade, desmandos com a natureza, guerras sem fim, especulações mirabolantes e bolhas irresponsáveis que estouram na cara do mundo e o arrastam , com os olhos embaçados, para dentro do poço, tenho procurado agir como aquelas crianças que, tocadas pela beleza, param para apreciá-la.
Tenho dado um tempo para descobrir maravilhas, ouvir boa música, apurar minha espiritualidade e cultivar meu jardim, como quis Voltaire. Tenho-me concedido, na medida do possível, um saudável distanciamento da aspereza cotidiana e convidado minha criança para brincar. Sabem aquele verso do Milton “toda vez que a bruxa me assombra, o menino me dá a mão…”? Assim.
Como Joshua, vou percutindo meu instrumento – a palavra, companheira inseparável – para todos que passam, apressados ou nem tanto, por minha estação. Também não ouço aplausos. Mas me sinto no lucro. Não o dos especuladores ensandecidos, mas o verdadeiro e nada volátil lucro dos que são, de alguma forma, vetores de sentimentos, emoções e ideias.
No mais é isso.
Se lhes aprouver, eis um trecho do vídeo de Joshua Bell naquela (fria) manhã.

