Paisagem afetiva
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Rubem Braga, considerado por tantos o maior cronista brasileiro depois de Machado de Assis, urbano e cosmopolita por excelência, gostava de escrever suas crônicas vendo e sentindo a paisagem da infância, a bela Cachoeiro de Itapemirim. Para isso, cultivava um jardim suspenso em sua cobertura, na Barão da Torre, Ipanema, onde, em meio a árvores frutíferas e passarinhos, curtia a vida e, entre um uisquinho e outro, reunia a fina flor literária do Rio de então- os amigos Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Vinicius de Moraes, para citar alguns.
Assim foi que, dia desses, sentindo falta da Niterói que já não há, tal qual Rubem, tentei compor a minha paisagem afetiva, aquela que me levaria de volta ao aconchego, na mala bastante saudade- o casarão da minha infância e juventude, construído por meus pais para viverem belíssima união.
Eis, então, queridos, a cidade cenográfica que gostaria de avistar diretamente da janela da redação do blog, aqui em Itaquá. Aos saudosistas, a recordação. Aos jovens, um exercício de imaginação:
A minha antiga rua com aquele cineminha que rolava ao ar livre quando a noite caía. As luzes dos postes cobertas por um capuz preto e eu, criança, sentada no chão para assistir às mais incríveis comédias e filmes de mocinho, olhos assombrados pela emoção e pelo medo do breu que me cercava…
O quintal, o do casarão mesmo, com sua imensa amendoeira em cujo andar mais alto havia uma casa de madeira, esconderijo perfeito. Aquele gramado onde eu tocava o terror no jogo de bola de gude dos meninos, até ser expulsa da área. Aquele espaço mágico onde, de bailarina e tudo, entrava nas batalhas campais de mamona no estilingue, contra os “inimigos” da vizinhança…
A praia com seu trampolim (só para admirar os marrentinhos aqualoucos), as palmeiras e os tatuís na areia, as carrocinhas amarelas da Kibon vendendo Jajá de coco pela orla…
A escola, a minha primeira, abraçada ao porta-caderno, me achando, indo e vindo no pequeno lotação com as amigas de trocar segredos, zoando, na boa, as meninas da escola vizinha que entravam depois de nós na condução…
Pelas ondas do ar, viria o som da rádio de maior audiência apresentando as 10 melhores músicas do dia, uma de cada cor, e eu só soltando a voz (desafinada desde sempre) com Sergio Endrigo, Charles Aznavour, Beatles, Roberto. Volare, volare…
O campo, aquele de santo nome, ora verdinho, ora florido, pois que assim foram os primeiros beijos que lá provei, pecado algum…
Os clubes, os das domingueiras e bailes de formatura, com os gatos de smoking tirando a gente para dançar, ao som de Moonlight Serenade…
A luz seria a daquele quarteirão feericamente iluminado para as festas juninas da maior escola da cidade. Cheirinho de milho, churrasco no palito, maçã do amor e barraca de mensagens onde já se agendavam futuros casamentos…
A baía, menos poluída, cortada somente pelas imensas barcaças que me levavam cedinho para a PUC, brisa da manhã no rosto, divertindo-me com o pessoal que cochilava batendo cabeça, sendo acordado no susto por algum engraçadinho, ao final da travessia…
E haveria carnaval… Ah, o carnaval da rua ao lado, lindamente decorada, com a gente ouvindo “me dá um dinheiro aí” sem ser assalto. A galera com a mesma fantasia, formando um bloco feliz, recolhendo confetes pelo chão e tornando a jogá-los para o alto, serpenteando por entre mascarados misteriosos e gentis…
Bem, chega de saudade. A realidade é que, apesar do breu das ruas que insiste em nos rodear, ma-ra-vi-lha viver!
PS. Que tal vocês, leitores desta blogosfera, jovens ou nem tanto, enviarem alguns itens de sua paisagem afetiva? Saudade partilhada, eu adoro…


novembro 6, 08 às 6:58 pm
Olá Selma querida, o seu blog está um luxo só! Parabéns! Com certeza fará muito sucesso! Eu só queria ter tempo, para ler tudo agora! Claro que li “Paisagem Afetiva” e fiquei encantada e identificada com a sua proposta literária. Conhecendo bem o meu lado prolixo,preferi poupá-la da minha “paisagem afetiva”. (Risos!!!) Prometo voltar… Desejo-lhe muitas conquistas neste espaço! Beijinhos… muita paz e luz!
novembro 7, 08 às 3:01 am
Labouré, prazer enorme recebê-la entre os amigos do blog, você que já é amiga de vida acadêmica afora, faz tempo…
Seja bem-vinda e honre-me sempre com seus comentários.
Beijos,
Selma
novembro 7, 08 às 6:01 am
Paisagem afetiva, lembranças inesquecíveis. Tantas… daria um livro. Gávea, Rio, futebol na rua, pique-esconde, primeira calça comprida, namoradas, cinema com cachorro-quente e Grapette, Maracanã, Fluminense. Férias na fazenda, leite no curral, sacristão na igreja, corrida de carrinho de rodas de madeira descendo o morro e parando só perto da ceva de criação de porcos, caçada de pacas do cativeiro, circo e, novamente, cinema (o único da vila) com os filmes mais incríveis. Em Icaraí, bicicleta, praia, futebol na areia, bailes e, novamente, namoradas. Jogo de porrinha durante a noite até a luz do poste apagar. … Petit Paris ao encontro de minha musa Selminha. Recomeço de minha vida, de nossas vidas. Grande prêmio!
novembro 7, 08 às 12:22 pm
Como sou um pouco mais nova relembro minha paisagem afetiva um pouco mais populosa, com poucas paisagens naturais mas sempre rodeada de muitos amigos na porta do Colégio Sào Vicente,na hora da saída. O que teria que ser hora sagrada de almoço, estavam todos comendo balas de maçã verde e chupa-chupa de doce de leite para tapear a fome. Eram muitas as fofocas sobre garotos “revelação” da escola, sempre com olhares atentos e curiosos transpirando hormônios da felicidade dessa fase de adolescência.Logo chegava o fim de semana para as famosas festinhas americanas, onde levávamos pratos de doces e salgados e dançávamos juntinho correndo o risco de sermos trocados pela famosa vassoura.
Ah, tempos bons esses…
novembro 18, 08 às 1:10 pm
Ao ler a sua paisagem afetiva me transportei para ela e senti uma ótima sensação de bem-estar, pois muitas coisas temos em comum. Lembrei também da minha rua, com a garotada brincando sem medo, de dia ou de noite: de queimado, de bandeirinha, rodando pião, pulando corda, fazendo teatrinho e cobrando ingresso para depois torrar tudo na padaria.
Bons tempos aqueles!
Beijos, amiga.
novembro 18, 08 às 2:05 pm
Soninha, adorei suas lembranças que, como você diz, são minhas também. Delícia fazer teatrinho! E lembrei do filme qua a gente passava na caixa de sapato, rolando folha de papel desenhada, colada uma na outra com durex… Demais!
Beijos e escreva sempre!
Selminha