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Trocando passos
novembro 14, 08
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Lindalva, viúva de pouco, tremia só de imaginar que pudesse ser um estorvo na vida dos filhos. Daí que vivia sem desperdícios, esticando como podia a modesta pensão que Inércio lhe deixara, guardando o dinheiro que entrava da venda das toalhas pintadas à mão, barrinha de crochê, tudo muito caprichado, by Linda. Achava tão chique assinar assim…
Anos a fio e a tinta, encomendas dobrando nos dias das mães e natais, Lindalva seguia batalhando, tecendo seu pé de meia e, na casa própria que a duras penas ajudara a pagar (Inércio não era chegado a um batente), ainda encontrava forças para receber filhos e netos para a lasanha dos domingos.
O falecido fora um bom pai. Nada faltou aos meninos, é certo. Mas, para Lindalva, a tal vida a dois não passara de um filme de quinta, uma fita esquecida na máquina ligada de um embolorado cinema, rodando ininterruptamente.
Lindalva adorava dançar. Vivia cantarolando “um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar…”, esperando que Inércio se tocasse e a tirasse para dançar, ao menos uma vez, na cozinha que fosse, ao som mesmo daquele rádio horroroso em cima da geladeira, bandeirinha do time presa na antena fazia anos.
Jogo jogado, prorrogação quase, Lindalva começou a cobrar um pouco mais da vida. Deu de se olhar no espelho, restinho de vaidade pulsando tal qual as pequenas veias que insistiam em lhe tatuar as pernas. E resolveu que acabaria com aquele problema. Faria a cirurgia indicada, não importava quanto custasse. Vaidade ou não, merecia. Tanto sacrifício, privação, noites em claro para dar conta das encomendas, poupando, guardando… Marcara dia e hora. Avisara aos filhos.
Só que, no meio do caminho, havia um sonho. Um desejo sublimado que aquela poupança de tantos anos tinha por obrigação realizar, sob pena de arrependimento sem volta. Até porque não teria tempo hábil para recomeçar do zero, amealhar tudo de novo. Pensou. Pesou. Decidiu.
E se deu de presente uma festa. O baile de seus 70 anos. Mandou florir o salão do pequeno clube, convidou os amigos. À meia-noite fez um sinal para os músicos, colocou-se no centro da pista. Sob aplausos, com um partner de aluguel, ela dançou aquele tango tantas vezes ensaiado na solidão do seu quarto. Rosa vermelha na boca, vestido bordado, sandálias altas. Tudo muito caprichado, by Linda.
Num único instante, ainda que as pernas não estivessem lá essas maravilhas, dançou por uma vida inteira. Naquela noite, resgatando todas as festas e prazeres que o destino, implacavelmente, lhe negara, Lindalva nunca foi tão feliz.
PS. A personagem é real e vai bem, obrigada. Não mexeu até hoje nas veias bailarinas, mas aquela festa com direito a tango ficou na história. Se lhe interessa, o vestido dela era verde como seus olhos, já nasceu o primeiro bisneto e tudo me foi relatado por uma de suas amigas presentes. Apenas o nome do falecido é ficção. Pelo conjunto da obra, merecido.

