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O lado B ou de como o ego inflado aciona o pavão
outubro 11, 08
Não sei se você que vem comigo acompanhou a celeuma que provocou, na blogosfera e na mídia tradicional, a carta postada pelo escritor Paulo Coelho ao Ministro da Cultura, Sr. Juca Ferreira.
Tentarei resumir a tal carta: segundo o escritor, havia sido confirmada, pela Embaixada do Brasil na Alemanha, e pelo próprio ministro, a presença deste no “maior evento literário do planeta”, a Feira de Frankfurt, da qual ele, Paulo Coelho, faria a abertura como “autor de cem milhões de livros vendidos”, “o mais traduzido do planeta, de acordo com o Guinness”. E qual não foi sua surpresa, faltando dias para o evento, receber a ligação do ministro, em um restaurante, avisando que não compareceria à Feira, pois teria outra agenda a cumprir. Ainda na carta, o escritor pede de volta ao ministro o convite para entregá-lo a um mendigo ou a um desempregado, já que o convidado ocupado não aceitara ir ao banquete, aludindo a uma parábola que Jesus conta no Novo Testamento. Finaliza deixando claro que, com ou sem o ministro, sua fama e seu brilho sairiam ilesos do episódio.
Jamais li os livros de Paulo Coelho. Seu tipo de literatura não faz minhas delícias.
Porém, com base na carta do escritor e nas centenas de comentários que chegaram ao blog de Ancelmo Góis, o jornalista que reproduziu a carta na íntegra, faço duas ponderações.
A primeira delas é que, embora reconhecendo como legítima a reprovação do escritor à atitude, no mínimo deselegante, do ministro, tenha ela ocorrido por equívoco de agenda ou não, causou-me espanto o lado B de Paulo Coelho.
Pela ira que transborda de sua carta, o mago interrompeu o ommmmmmmm e despiu-se das vestes zen. Sim, o ego inflado abriu-lhe a imensa cauda de pavão. Perdeu a serenidade. Desequilibrou.
Definitivamente, a vaidade exacerbada e a falta de humildade demonstradas não condizem com o que o escritor prega, passa, seja lá que termo se dê ao que resulta dos textos que publica.
Vamos combinar que seria suficiente a bronca pública, já que ambos, ministro e escritor, também o são. E porque houve, pelo que se deduz, uma desatenção talvez até mais prejudicial ao mercado editorial brasileiro, dada a dimensão do evento, do que ao próprio Coelho.
Meus outros espantos dizem respeito aos comentários enviados, tanto para o blog do jornalista Ancelmo, quanto para o do escritor. Além de virem, em sua esmagadora maioria, de leitores que não o apreciam (e o massacraram verbalmente), continham uma espécie de consenso que justificava a atitude do ministro: ele é muito ocupado, tem mais o que fazer.
Fazer? Como assim? O que faz o Ministro da Cultura do Brasil ou pelo Brasil? Quem conhece o Sr. Juca Ferreira? Quem é ele no panorama cultural brasileiro? Com que méritos ascendeu ao cargo? Ou foi bastante a indicação do companheiro compositor (dos bons, por sinal) que acabou de deixar o Ministério? Aguardo respostas.
Sinceramente, a ter alguém tão culturalmente inexpressivo como o Sr. Juca a nos representar, pergunto se não faria mais pelo Brasil (além de sair barato aos nossos combalidos bolsos) distribuir a famosa bala homônima, a nossa Juquinha, pela Feira. Algo me diz que Frankfurt jamais seria a mesma…
Perdoem-me a piada azedinha, leitores. Também tenho meu lado B.

