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Por que Poesia em tempos de indigência?
setembro 22, 08
Com este texto, escrito em 2004, fui a primeira classificada no Concurso Nacional de Redação para Professores da Academia Brasileira de Letras e do jornal “Folha Dirigida”. Momento de imensa realização…
“Repetir, repetir – até ficar diferente.”
(Manoel de Barros)
Porque precisamos, mais que nunca, de lirismo que é libertação, delírio do verbo. De tocar tango argentino e dançar sobre um palco iluminado até o sapato pedir pra parar. De ser gauche na vida e ouvir estrelas, que felicidade aparece mesmo é em horinhas de descuido.
Porque temos visto demais o beco. E no meio do caminho, pedras. E rostos assim tristes, assim magros, olhos tão vazios. Temos tido febre, dispnéia, suores noturnos. Diante de nossas retinas fatigadas, o horizonte é apenas o da fotografia na parede. Isso dói. Navegar é preciso e nosso barco, estranho barco, navega a remo, a dor de braço; de vela é rico, de vento é escasso.
Porque nos têm sufocado a mediocridade pachorrenta; a miopia displicente das elites, mudas telepáticas; o vazio absoluto das idéias, falácias que não sabem de rima, nem de solução.
Porque José nunca tivera querido dizer palavras tão loucas a sua Fulô. Mas a mão que afaga também apedreja. E agora José, sem carinho, em total solidão, fim de quem ama, vai viver da poesia que entorna no chão, inventar o cais, se lançar. Ainda que o Tejo não seja o rio de sua aldeia. O resto é mar.
Porque é mentira que basta de lero-lero, vida noves fora zero e um dia estaremos mudos – mais nada. A alquimia do verbo sempre irá nos lembrar de nunca morrer assim, num dia assim, de um sol assim! Pois para isso fomos feitos: para a esperança no milagre, para vermos a face da morte e, de repente, nunca mais esperarmos. Apenas nascermos, imensamente. E, na medida do impossível, renascermos. A cada dia, Fênix. A cada dia. Vida é para ser reinventada.
Assim, que poesia é voar fora da asa, migrando ao sabor dos vôos e vertigens das redondilhas, pedirei à cotovia que leve aos céus este avigrama redentor:
Senhor, poupai os poetas! Eles abriram janelas, salvaram afogados. Teceram as palavras em poesia, oráculo pelo qual rompestes Vosso silêncio. Deixai que flutuem para o Amanhã, livres de correntes, remidas, suas almas nuas!
Em tempos de carências, bem-vinda a poesia, louvados os magos-poetas que nutrem nosso espírito e nos afagam os sentidos. Jamais seres acima do bem e do mal. Tampouco o novo homem. Apenas vetores de sentimentos, emoções e idéias e por isso mesmo, de mudanças onde toda indigência se dilui.
Seja-lhes sempre fontana a inspiração, pois daqueles a quem deu o dom de conceber idéias ou emoções especiais e exprimi-las de forma estética, parece claro que Deus espera algo. Quem dá os meios, dá a missão.
“Não me acorde, se estou sonhando” – disse Dom Quixote, o maior dos sonhadores, ensinando-nos que a utopia, da qual nasce a esperança, é parte da condição humana, assim como transcender, superar ou modificar essa mesma condição é necessidade indispensável ao homem, justo porque essa condição é imanente.
A cada um de nós é dado ver as coisas como são e perguntar-nos: por quê? E sonhar como as queremos ver e perguntar-nos: por que não?- refletiu Bernard Shaw.
Assim também, em tempos tais que vivemos, sejam abençoados os magos-professores, esses desdobráveis de pés no chão e olhos nas estrelas, a quem cabe o cotidiano desafio de soltar amarras, romper margens, dissipar sombras e conduzir barcos a ultramares onde a Educação, plasmada em novo código genético, há de diluir indigências e tecer mais luminosas manhãs.

